quarta-feira, 12 de julho de 2017

O ex

Que é um Homem com paciência descomunal pra estas andanças virtuais, tanta, tanta, que de cada vez que me ouve mais um episódio sobre as peripércias desta macacada, revira os olhos de tal maneira que até já pensei em comprar um recipiente fácil de transportar e de ter à mão, não vá dia destes cair-lhe um e ter uma índia que andar de rabiosque pró ar à procura do dito, paciência quase a rivalizar com a que tem para mim, que se  refere ao meu querido blog como "o teu coiso", foi posto hoje, ao corrente e à prova da situação  que me povoou os sonhos da noite passada, de jeito tão assaz premente e hilário  que me obrigou a 3 xixis durante a noite, e mais tarde  à interrupção da  reunião para a qual a minha presença foi chamada, interrompida  devido à necessidade de um dos presentes ter  de ir a casa mudar de camisa, por motivos de, inadvertidamente, a ter ensopado em café. Aqui tenho mesmo que abrir um parênteses para expressar a minha incompreensão, no sentido de em  como é que esta gente ainda não apreendeu a evidente necessidade de ter no seu local de trabalho, pelo menos uma camisa extra, de forma a colmatar situações idênticas, muito em particular aquelas em que há reuniões comigo. Parênteses fechado, passo agora à explicação do que hoje aqui me traz, e então foi assim: 
Reunião, blablabla, documentos, números, actas, decisões, propostas e altas considerações, interrompida aqui e ali por um "hã...?" -  meu, bem entendido, sempre muito pertinente e passivo, que mais ninguém se atreve a dizer "hã..?" ao Boss, sem que ele arqueie a sobrancelha esquerda em sinal de desagrado, enquanto que comigo arqueia as duas, e tenho pra mim que é simplesmente em sinónimo de surpresa por eu verbalizar a minha participação e interesse, tão convicta disto estou,  que até por vezes até digo aquilo só para o agradar  -  quando, a determinado momento, se aproveita a ida de alguém ao seu escritório em busca de uns documentos em falta ou lá o que foi, e nos pomos, ora uns a  bebericar seus cafés durante o interregno, outros com ar circunspecto alinhando ideias, outros ainda dedilhando seus  pcs, e é se não quando  sinto a desenhar-se-me no rosto o sorriso reflexivo da memória do meu sonho, dirigindo-se-me o olhar pró ex, de jeito bastante intenso, coisa que normalmente faço quando se me inunda a mente com ideias fartas em  pertinência para mim, invariavelmente em o mesmo peso de absurdo para ele, e coisa que, juro por todos os deuses, já tentei controlar, mas sempre em vão. Ele, conhecedor das minhas expressões e intenções intrínsecas a cada uma delas, suspira, levando  uma das mãos aojólhos, que nela descansaram, e que é a sua  mensagem gestual  pra "ai meu Pai que vem aí merda e  eu não mereço, acudam-me, alguém..   ", quando se trata de mim. Em minha defesa, devo registar que emiti um "nada, nada.." bastante sumido, em resposta à sua pergunta "o que  foi, Isabel...?" - atitude que hei-de morrer sem entender, a de porque caraças o Homem sequer me pergunta coisas quando me nota assim -  mas  perante a sua insistência - e depois ainda insiste - e também  porque por então, já todos os outros estavam alertados para algo no ar, me viram o sorriso alastrando de orelha a orelha, levando as suas intuições a que desviassem a atenção de seus afazeres, se recostassem nas cadeiras, chaveninha em mãos, sorriso antecipativo nos lábios, olhar saltitante entre mim e ele, e assim se quedaram, expectantes das pipocas imaginárias que estão fartinhos d'amorfar à nossa conta. Já não havia volta a dar e os documentos nunca mais apareciam. Confrontada com isto e mais com a minha timidez, que por tantas e tantas ocasiões me privou de sabe-se lá o quê, resolvi despachar o assunto, abrir o jogo, digamos assim, a ver se conseguia pelo menos parar de rir, e passei ao desabafo, explicando ser de facto um pedido, uma coisita de nada,  uma ninharia, e explanei: - Pá, ando aqui amofinada com umas cenas, 'tás a ver, sinto um certo distanciamento das 'ssoas em relação a mim, dá-me a impressão - e olha que me custa resmas dizer isto - que não me entendem, enfim, e não me estou a referir a quem conheço em pessoa. Este desapego que me trucida advém do mundo virtual que frequento. Isto anda a por-me tão triste, que estou a ver que daqui a nadinha atraio uma depressão, e 'pois já sabes como é, né? Imagina. Tenta imaginar-me deprimida, aqui em reuniões, ou o que pode acontecer à minha conta bancária caso tal aconteça, maneiras que te queria propor uma coisa, sobre a qual gostaria que cogitasses com muito carinho, mesmo que assim de repente te vá parecer montes d'imbecil. Sim? Prometes? Vale? Juras?  Faxconta que isto é uma cena empresarial, vê o meu assunto como uma empresa em risco. Hum?

A resposta ficou suspensa até ao regresso do Tiago que teve um ataque de xixi por motivos d'ansiedade, pedindo silêncio absoluto até ao seu regresso, "Ó boss, pelo amor da santa não responda, que quero assistir a tudo, tudinho", disse o moço, que é um funcionário exemplar, perfeitamente sabedor de que ao seu mestrado em .. não me lembro, há que juntar a prática das coisas, e foi o que fizemos.  Tiago regressado, 6 pares os olhos postos em nós e 5 suspiros enfadados do boss depois, documentos ainda em local incerto,  lá veio o : - Diz lá,  Isabel..., seguido do usual:  Tu... Isto... Isab ... a sério ... estamos no trabal ... bolas ... sempre a mes ... caramb..., e mais o acrescento que tenta  terminar com o que quer  seja que extravase os parâmetros laborais, no caso:- Ó CATARINA, ENTÃO OS DOCUMENTOS?? .. francamen...  VÁ! DIZ LÁ!

Luz verde. Certo? Ele berrou "VÁ! DIZ LÁ!". Só pra que fique bem claro. 

Acomodei-me na cadeira, fiz uns segundos de silêncio tentando concentrar-me em discursar o mais assertivamente possível, de forma a emprestar um bocadinho grande do conceito ao que ia dizer, e mandei-me à coisa: 
- Primeiramente, é preciso esclarecer-se que não sou a pioneira no que te vou propor. [pausa]. [olhar pra todos a ver se lhes tinha captado a atenção]. [Tinha]. [ a Catarina já está com os documentos ali à porta há pelo menos 3 mn, que bem a vejo, está é escondida e a fazer "shhht ... ", porque sabe que se entrar, acabou-se o recreio]. [vou falar uma beca mais alto pra ela ouvir bem].  Refiro este importante ponto, porque sempre que te proponho algo tu rechaças imediatamente os meus ideiais, estou em crer que só porque são os meus. [vitimização rule]. Aproveito para dizer, já agora, que isso me magoa bastante. [nunca esquecer de baixar os olhos após o lamento]. [ done]. [ estúpidos da merda, estão-se a rir, ainda me estragam esta treta]. Então, e porque assisti ao tremendo sucesso da empreitada que tenho em mente reproduzir - "sucesso", fixa bem esta palavra faxavor - estou a pensar em fornecer-te todos os meus contactos virtuais, já que és o meu ex e não tenho actual  [lá estão as sobrançelhas do homem em arco, ó que amor!]. De seguida, e agora muita calma quanto ao que vais ouvir, pretendo forjar a minha morte. Calma! Pedi calma!Eu sei que é uma ideia "Júlio de Matos", mas calma! Há um objectivo! Não te esqueças da hipótese da depressão. Calma! Continuando, forjo a minha morte, e tu, como bom ex que és, que és, sim, és, poisés, és pois, és sim, agarras naqueles contactos, e a primeiríssima coisa que fazes após a minha suposta morte, será disparares emails práquela gente toda a dar-lhes conta do ocorrido. Não te preocupes sobre o que poderão eventualmente pensar de ti, nomeadamente se não seria de esperar que estivesses era esmagado pela dôr ou isso, sem cabeça ou coragem pra sequer levares a notícia os nossos mais próximos, enfim, naquele estado comatoso em que normalmente ficamos quando alguém que nos é querido morre - e não te ponhas com esse riso estúpido a dar a entender que não te sou querida, pára já com isso que me estás a enervar, PAREM TODOS OU NÃO CONTINUO! -  o que importará aqui é avisares os meus amigos virtuais, subentendendo-se ser esse o mais natural, óbvio, e expectável acto imediatamente contínuo à morte de alguém, contando-se para tal,  com as suas subjacentes incapacidades de raciocínio, como o que resultaria, nas pessoas com dois dedos de testa, em ficarem confusos, desconfiados, surpreendidos  ou algo assim, sobre porque caraças estariam a receber aquela notícia, via mail, um a um, vinda de ti, para quem te é completamente estranho,  sendo este o único ponto que faz abalar a minha fé nesta demanda, por  justamente saber que nenhum dos meus amigos, virtuais ou não,  é um  canhão de burro. Mas hey, não custa tentar. Sabido é que o elemento surpresa já ganhou muitas causas. O meu intuíto prende-se com averiguar sobre quem chorará por mim - continuas comigo, estás a apreender bem o propósito? Não..? Ok, fá mal, tarda nada já percebes - se quem o fez foi por mágoa ou se porque já fui tarde, sendo que, aquele que o fizer pelos motivos que considero correctos, ficará sabedor de que terá em mim uma amiga prá vida. Uma amiga daquelas bem boas, percebes? Das que à partida ninguém quer, das que são um dreno de atenção, das que fazem birrinhas territoriais, mas que têm um coração  bué doirado, tem é que ser desenterrado e posto a apanhar ar, para que se lhe vislumbre ponta por onde se pegue.  Que dizes? Olha, adianto-te que qualquer hipotética condenação à encenação em causa, será defendida por mim - ilibando-te por arrasto - com um vigoroso "mas o saldo foi positivo!", na medida em mesmo que seja uma boa merda de atitude, pá, atingi o meu objectivo, em encontrando quem por mim chore. A pessoa que chorou que se lixe, porque afinal, até chorou por mim, portanto, por uma boa razão. Compreendes...? Ainda não..? Porra... Opá, EU, preciso saber. EU, quero. EU, estou a sofrer, e vistas bem as coisas, alguém  ganhará uma amiga! Mesmo que depois não saiba o que fazer com ela, onde a enfiar ou mandar, sendo que  com um bocado de sorte, podem-me sair na rifa as lágrimas de alguém igualmente chanfrado, e já vês,  é ouro sobre azul, pô, se isto não são motivos mais que suficientes para fudamentar o que a tantos possa aparentar  ser loucura no seu expoente máximo, como algo de perfeitamente plausível, então não sei nada de fundamentos, carago, qual a parte que não entendes..? Se não entendem isto, como poderão entender o Donald Trump, né? Pois.  Queres provas! Tenho provas! Posso provar! Tenho  links para o  meu exemplo-alicerce , qués? Ora procura lá a ver se não tenho razão. 'Tão, alinhas ó quê?,  e aguardei pelo veredicto, com um ar muito seguro, assim como vejo nos filmes, ou como o nosso fornecedor de sacos de plástico costuma fazer.

O boss ficou um bocadinho sem reacção, até me preocupei com a tensão arterial dele, estava com um ar estranho, de boca aberta, olhar confuso, outros foram a correr para os pcs a confirmar se Tarantino tinha mesmo andado por cá, alguém estava no chão  procurando algo, talvez  coerência ou sanidade mental, a Catarina agarrada à bexiga, o boss dá com ela, levanta-se, resmunga algo, tira-lhe os documentos das mãos,  disfarça o riso, fala alto, a pôr ordem na sala, e é aí que tudo é interrompido com o gritinho do parvo do Tiago "ai que me queimei com o café!", o que derivou na necessidade de se dar  por terminada aquela reunião por motivos de sobreposição de horários com outras, adiando-se a dita para dia  e hora a comunicar, deixando-se bem claro ser minha presença  perfeitamente opcional.

???

Como, eu, "opcional"?!

E de resposta, zero. 'Tou mesmo a ver que tenho que fazer aquilo sozinha. 



4 comentários:

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    1. Foi o que ouviu mais por lá, pois foi...:))

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  2. comparando o azero que anda a bloga, isto é do melhore que
    há. leva muina mente.to tempo a se ler assim coiso, tá-se bem mesmo
    sem oculos....mas tanto tempo leva a uma descalcificação...
    arrematado!!!!

    pá essa gente das mortes hoje sim amanha não é coisa que
    não afeta nem o menino jesus em que ainda acreditam. nem eu!!!
    mas tive de fazer o show pra que a ciganada acreditasse.

    gente menor, tipo Passos Coelho e secretários, daqueles que escrevem
    os discursos, mas quem lê é o Passos. quem fika com os louros?
    sempre o mesmo. os das traseiras não levam nada. nem gloria, nem dinheiro.
    é tipo secretariado da duque de loulé, sabe o que é?

    eu sei mas não digo
    quando passar por mim favor falar

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    1. Só para alertar que da última vez que bebi disso que a menina aparente ter bebido, mandei um malho que ando com o tornozelo a gritar por clemência, até hoje. Já lá vai mais de 1 mês.

      Depois não digam que não sou dada à solidariedade e essas merdas.

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