5 de maio de 2017

Crónica de uma Mãe destroçada

Após uma reunião de emergência que tive com o boss, lá no meu ganha pão, acabamos por concordar em retirar do colinho dos nossos herdeiros o nosso património, devido à manifesta revolta que a situação suscita a elementos de grande valor prá sociedade, tanto em termos fiscais, quanto em de  irrepreensível comportamento. 
Assim, repensando todos os actos até à altura praticados no sentido de - achavamos nós - um futuro bonito ora para os herdeiros quanto para o País onde labutam, proporcionando-lhes experiência nas suas pós graduações, supondo-se serem um espelho dos seus progenitores enquanto trabalhadores responsáveis,  fomentando postos de trabalho e essa porra toda (<- esta parte sou eu a dizer, não consta na acta), o que  contribuiria para uma rosadinha e saudável economia do nosso amado Portugal, e pese embora  a coisa aparentasse estar a correr muito bem, dizia eu, prós e contras foram exaustivamente equacinados, concluindo-se estarmos de facto tremenda e redondamente enganados. 
Sim.
E a culpa é nossa.
Sim. Nossa. 
Ninguém nos mandou aconselhar e incentivar os herdeiros a estudar em áreas de suas escolhas - lá está, essa merda do livre arbítrio tem muito que se lhe diga, até estou com vontade de me bater - dar-se o caso de  ainda por cima  serem úteis, e de terminarem aquilo com notas que vai lá vai. Pensar nisto, hoje,  custa-me muito. Dói-me. Sangra-se-me qualquer coisa. Recordar-me que o fizeram em um ano por cada ano, faz com que se me assome uma vontade louca  de me esganar, arrancar-me cabelos, esgatanhar-me toda, só não adiro àquilo da baleia azul porque já não tenho idade pra merdas e não gosto cá de concorrências,  pra cetácea basto eu.   
Ahhhh... Pudesse eu voltar atrás no tempo...
dizer-lhes que o bom mesmo seria entrarem prá faculdade e ficarem 5 anos pra perceber que tinham entrado, que após a Luz lhes encontrar o cérebro, nesse sentido, deveriam recolher-se a profunda meditação  sobre se teriam escolhido o curso certo, cogitarem que calhando não, ou que calhando sim, ou que não, ou sim, e ficarem naquilo enquanto  nós lhes  pagavamos as incertezas,  por tempo indeterminado. Ahhhhh.... Pudesse eu voltar atrás no tempo...
Revoltei-me, confesso. Não mereço! Ninguém merece filhos inteligentes, responsáveis, conscientes de si, do mundo, independentes e muito participativos em todos os assuntos de Família. Não fossem os meus tão refilões e de pelo na venta, tenho pra mim que os deserdava, estúpidos, credo, que nervos, onde já se viu um filho não ter como adquirido qualquer direito que entenda ele - e muito bem!- ser seu por... que sim?? Porquê, pelos deuses,  não me sairam na rifa criaturas que andassem sempre à pendura na barra da minha saia "ó mainha pexiso de dinheiro, dá-me dinheiro, mainha, eu quero isto! mainha eu quero aquilo!", ou daqueles que pura e simplesmente vão de férias e voltam por alturas da leitura do testamento, como fazem as 'ssoas normais..?  
Ahhhhh ...
Pudesse eu voltar atrás no tempo.. 
E enche-los de roupinhas de marca, ferraris, maseratis e porshes, ir po-los a festas onde houvesse drogas aos quilos, overdoses, alcóol e comas alcoolicos, ou nessa inviabilidade, ter-lhes proposto uma rebaldaria aqui outra acolá, uma pornografia, um incentivo à adesão a sites amorosos, dizer-lhes "vão fios! vão mostrar vosso corpitxo ao povão e digam qué pra pagar a renda .. eheheh",  tivesse-lhes eu aviado com um chapadão bem puxado de cada vez que eles reconheceram o nosso empenho nas suas educações, ou de lhes ter dado com um martelo nos dedos mindinhos ao primeiro "obrigada Pai e Mãe" que lhes ouvi, que  isso sim, isso é que era!  
Argh! Pudesse eu voltar atrás no tempo...
Todavia, face à impossibilidade óbvia e perante a vicissitude, nada mais nos restou que  a encararmos bem de frente e tomarmos medidas drásticas, em prol de um amanhã como deve ser. Foi por esse tanto, que é imenso, decidido o que para eles é, muito erroneamente, impensável: pararem de trabalhar. Quando? Já. Chamados à sala da presidência, chegaram assustados. Qué pasa Pápis? perguntaram em uníssono, um com o canto superior direito do res-do-chão das instalações ao colo, e o outro com a zona das casas-de-banho. Temos notícias para vocês, disse o presidente, sentem-se. Deliberamos, continuou o boss que terão que ser removidos dos vossos cargos e desta empresa. Instalou-se um silêncio sepulcral. Os herdeiros, boquiabertos, aconchegavam mais e mais os seus pertences ao peito, assim como se lhes estivessem a tapar os ouvidos, o boss, aparentemente impertubável, prosseguiu, de olhar muito firme, sem que no entanto pudesse controlar o leve estremecer de queixo.  Vossa Mãe e eu erramos. Muito. Sabemos que não sois culpados, mas estando ambos na casa dos 20, teremos que ser duros; afinal já não tendes muito tempo de modo a que pelos 50 estejais devidamente formados. Lamentamos ter que vos dizer terdes sido mal orientados por toda as vossas vidas. Por isso, as nossas desculpas. Por isso também, comunicamo-vos que serão removidos dos vossos cargos e da empresa, repito,  pelo menos até aprenderem a ser herdeiros. Um herdeiro não trabalha. Espera que o progenitor morra e depois aufere. Simples. Óbvio. Flagrante. Como a nossa inabilidade. Silêncio.  E continuou "naturalmente não poderiamos deixar de assumir as nossas responsabilidades na tragédia que provocámos. Eu e vossa Mãe vamos a pé a Fátima em remissão desse pecado, e já compramos bilhetes para a Maria Leal. Andamos a ver se o Saul ainda trabalha.  Vocês vão para casa  em modo sabático ad aeternum, vamos tentar agora a educação que deviamos ter-vos dado há muito. Nós exigimos filhos parasitas. Queremos - temos o dever! - de vos sustentar. Quando  alcançarem  esse objectivo - não esqueçam que têm só até aos 50 anos de idade - então sim, podereis regressar ao business. Trataremos de pôr na piscina que vamos mandar construir, 2 espreguiçadeiras, onde vós vos  esparramareis, pc à frente, de modo a percorrerem tudo o que há na net, dia e noite, para que possam dominar convenientemente o menos possível de qualquer tema. Só após essa confirmação papai dirá que o negócio "expandiu", e poderá o mesmo ser-vos entregue. Pronto, podem ir. Apanhem um avião pra Maiorca, States, Praga, o que quiserem, mas VÃO SER HERDEIROS! Não quero desculpas para o não serem, quero pedidos de dinheiro pra pagarem aos vossos PTs!. Larguem a empresa, sff, tirem lá isso dos vossos colinhos, já... ó Isabel vai lá tirar aquele bocado de parede que ficou ali no colo do nosso herdeiro, que o sr. Peixoto está à espera de pormos a empresa inteira no colinho dele. 
Foi tenebroso. O homem muito doído, eles muito perplexos,  eu desfeita, sem saber a quem acudir ou o que fazer.  Tentei o primeiro que me aparecesse à frente, mas ... Não, não, afasta-te de mim Mãe, não!, Não estou a acreditar que me estás a mandar pra Palma de Maiorca, Mãe... tu és minha MÃE, como podes...??, gritou, largando a custo o rolo da toalha de mãos. Morri vezes sem conta ali, naquela sala. 

Era tardíssimo quando regressei a casa. Saí da reunião e rumei à minha praia d'estimação, aquela que me acolhe sempre que tenho problemas. Vou para lá e conto grãos de areia. 251.657 foi a última contagem, mas acho que alguém os misturou, pois que tenho ideia de que teriam que ser mais.  Depois anoiteceu e eu já não via nada, disse adeus ao mar, separei os grãozinhos e pintei-os de modo a marca-los e abalei. Já em casa, muito agastada, lá consegui amorfar 1 hamburguer com queijo, fiambre, ovo e batata frita - sabem só os céus a que custo - forcei-me de seguida a um petit gateau, porque uma pessoa não pode ceder a contrariedades, tem que ser forte e eu sentia-me deveras fraquinha. De seguida  chorei um bocadinho, culpando os meus pais, pra entrar no espírito da coisa, e foi com a cabeça em água que  palmilhei a casa toda, a ver se espairecia. Fui à varanda, ao sótão, fui à cave, aos quartos, qual animal encarcerado, não conseguindo encontrar a saída. Como nem isso nem as minha calças pretas, acabei por sucumbir ao cansaço e adormeci, exausta. Acordei ao nascer do dia,  não sei se com o meu próprio ronco se  por aquele sonho horrível, de  uma gaja no super mercado agarrada à última caixa de profiteroles, e eu a puxar, e ela a insistir, e eu a puxar, e a puta a zarpar dali com a última caixa de profiteroles e comigo agarrada aos tornozelos dela. Transpirada, batimento cardíaco descompensado, arquejante, levanto-me, corro para o congelador, regressando aliviada para o quarto. Fora somente um sonho muito ruim. Talvez devido aos recentes traumas psicológicos, meu cérebro precessara-os em situações comparáveis. Respiro fundo, tentando afastar aqueles pensamentos, concentrando-me na alvorada. Dirijo-me à janela, abro-a. Cabelos ao vento, acariciada pela brisa matinal, reparo no orvalho. Sorrio. Penso qué  lindo comó caraio, e eis que sou de novo assaltada pelos fantasmas da dúvida e da culpa, demónios que comigo carregarei eternamente:

- E se os herdeiros encontram trabalho noutra empresa?! 


Ali fico, petrificada, lívida, com aquela possibilidade espetada no coração. Sentindo-me desfalecer, olhar perdido, dou com o primeiro raio de Sol daquele dia, daquele novo dia, de mais um dia, como que me chamando para o renascer, para a esperança, a fé, iluminando, trepidante, aquele pedacinho de cocó de passarinho, em simultâneo com o meu raciocínio que me sossegou assim;

- Naaaaaaaa... Nope.  Isso não pode acontecer, porque  cada um deles tem só uma licenciatura.



E voltei, rejuvenescida, para o meu leito de 2,20 de largura, que ocupo na íntegra.  


6 comentários:

  1. Fiquei aqui a pensar se essa teoria dos herdeiros, ou lá o que é, é ensinada na 1.ª ou 2.ª vertente da Sociologia....

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    1. Penso que será na vertente para sociólogos de merda.

      Depois há as outras vertentes, que é a de gente séria e competente, que honra o curso que tirou, aplicando os conhecimentos adquiridos e até expandindo-os.
      Sabes tão bem quanto eu que não é um curso que faz uma pessoa, sendo que de facto é exactamente ao contrário.

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  2. Duas pequenas emoções me achatam sempre que consigo vir a este local:

    a) estarei numa montanha russa? porque pura e simplesmente nunca sei onde vou cair! não o receio, claro. vossa ironia serve sempre de almofada para não rebentar com os meu amplos costados. e bem precisam de suporte.

    b) o que aqui descreve, cara Isa, estabelece, por critérios simples mas terrivelmente eficazes, a diferença entre o verdadeiro, absoluto e intratável cagão parasita que julga tudo pelo seu olhar de apenas 50 centímetros e a criatura racional e de amor próprio.

    Perdoará que eu, pequeno demónio de penumbra, sinta rasgada emoção, já que bazei de casa cedo como a merda! Estou terminando estudos académicos e, pasme-se!, continuo sem receber um tosto alheio! Que não seja o das minhas profanas horas de trabalho. Concorde, por favor, trata-se de uma grande filha de putice!

    Uma vez mais Isa, agradeço estas leituras. Existem poucos locais que me despertam bom humor e este, Cristo a dançar a polka, desperta-me.

    Fleuma.

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    1. DEUSES!!
      TRABALHAR E ESTUDAR AO MESMO TEMPO?? ARRRRRGH!
      HORROR! Ó Fleuma, tu vai imediatamente ao médico ver isso, pá!

      Calhando até és daquelas pessoas que quando não encontram trabalho nas suas áreas, vão procurar .... (até me custa dizer isto, caramba, dizem que é uma doença tão grave )... trabalho noutra!

      ( 'xa-me ir bater na madeira que já volto..)



      ( Já tá..)


      O critério é sempre o da inveja, caro Fleuma.:)) As minhas "pitas mimadas" não sairam de casa cedo - os meus parabéns a quem o fez seja lá em que circunstância, btw, e mesmo assim, ou talvez por isso mesmo "se fez" - e foram ensinadas desde muito pequenas que cada privilégio de que usufruem, tem uma obrigação anexada. Não há direitos adquiridos, nem rabinhos sentados à pala do trabalho dos pais. Por enquanto tem corrido bem.:))

      Abraço e obrigada pela gentileza.:))











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  3. Gostei bué desta cena que aqui escreveste. Acho que escreves muitíssimo bem e além disso fiquei muito contente por não ser a única que quando cai da cama cai para os dois lados.

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    1. Prós dois lados, qué pra não haver cá ciumeiras entre o lado esquerdo e o direito.

      (O que nós fazemos em prol da paz dos colchões, é verdadeiramente admirável. Mas os outros é que vão ser canonizados. Pois).:P

      Obrigada, Uva Passa. :))

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