22 de maio de 2018

"Na eutanásia sabe-se como começa, não se sabe como acaba"

( Assunção Cristas, aqui).


Comé, conto-lhe eu, ou um de vocês...?

... Ou deixamoza-la em eterna incerteza, porque lhe fica tão séqssi aquela ruguinha de tortuosa curiosidade...?


6 comentários:

  1. Esta frase vinda da Assunção Cristas é um mimo...uma verdadeira pérola. "Uma lei que trata simplesmente de criar no SNS - aquele Serviço Nacional de Saúde que queremos desenvolver e acarinhar para tratar as pessoas e dar qualidade de vida até ao fim dos seus dias -- se prepara para passar a ter uma nova prestação, que já não é tratar, já não é tirar a dor, é antecipar a morte, é executar morte. Isso nós não aceitamos, nem achamos admissível"(...). Ás vezes penso que esta gentinha não vive num mundo real, saberá ela o que sofre uma pessoa em estado terminal, saberá ela o que sofre os filhos e esposas de quem estado estado terminal, a degradação, o sofrimento a dores que o doente tem sem podermos fazer nada. Saberá ela o que é entrar no hospital e ver o Pai a levar doses de morfina, deitado numa cama sem reacção para nada de olhos abertos mas no vazio. Saberá ela o que é ouvir um pai dizer à filha "matem-me já", porque as dores eram horríveis, e o que deve ser para um pai pedir isto a uma filha, e o que é uma filha ouvi-lo sem poder fazer nada para o ajudar. Saberá ela que o próprio SNS quer enviar pessoas em estado terminal para casa sem mínimo de preocupação se há condições para isso. Não terá vergonha tendo feito parte de um governo que menos investiu no SNS e que chegou a falar em entregar a privados de dizer estas baboseiras.

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    1. Eles não acham admissível que a morte - a única certeza que temos ao nascer - aconteça através da eutanásia, proporcionando ao doente um fim digno. Admissível e digno, para eles, é a medicina intervir prolongando sofrimentos horríveis como os que referiu, porque enquanto uma pessoa respirar, nem que seja com ajuda de máquinas, está "viva", continuando a perpetuar essa noção estranha que têm do verbo, desconsiderando tudo e todos como tão bem refere no seu comentário, e por fim, demonstrando a tremenda covardia com que fomos educados a lidar com a nossa finitude.

      Eu devia ter uns 18 anos, quando um familiar meu foi mandado para casa em estado terminal. Na minha, eu ouvia os seu gritos de dôr. Depois tive outro cuja mulher parecia uma louca, corredores de hospital afora, exigindo a unidade de dôr para o seu marido, unidade essa que só pode accionar as suas funções após autorização do médico que acompanhou o doente, médico que só o fará, quando o doente atingir o estado no que a medicina deliberou como "ético", faze-lo.
      Se dentro do que se considera ético, realmente alguma dôr fosse "tirada", alguém fosse mesmo "tratado" ou houvesse alguma "qualidade de vida", talvez se pudesse manter um debate com alguma fundamentação, entre quem efectivamente se preocupa com a dignidade de cada um.
      Assim, com aqueles argumentos, dá a impressão de se estar a lidar com quem é morador em realidade de patologia assustadora, agarrada a conceitos absurdos, mas tão bonitos de se dizer. Quase poético, o que aquela gente defende. Não fosse o discurso estar pontuado de gritos, traumas e revoltas, e até eu nele acreditaria.

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    2. Tudo o que relatei é verdade e infelizmente aconteceu dentro da minha casa, com o meu pai. Foi horrível para mim e penso que para ele, no dia em que ele olha para mim me faz uma festa na cara e me diz directamente "matem-me já", ninguém sabe a força que eu tive de ter para não desabafar à frente dele, a minha mãe ainda hoje não sabe que ele me disse estas palavras. Doeu e muito ouvir as palavras, mas doeu mais vê-lo naquela cama de hospital a sofrer como sofreu, e sim, choquem-se as pessoas com estes argumentos de merda, as pessoas que não sabem o que é a realidade do SNS, sim eu teria apoiado o meu pai caso pudesse e fosse esse o deu desejo.
      Saberão eles como as chamadas "assistentes sociais" dos hospitais do SNS tratam os familiares desses doentes a quem eles querem proporcionar o chamado fim digno? É ligarem para o piso onde doente está internado e perguntarem à enfermeira se lá esta a esposa e a seguir sem dó nem piedade informar friamente que o meu pai tinha que sair do hospital e que ela não se podia desresponsabilizar-se da situação em que ele estava e a obrigação era dela enquanto mulher de o levar para casa e tomar conta dele até ao ultimo dia da vida dele e tinha de resolver o mais depressa possível, que quereria a resposta no dia seguinte. Isto passou-se numa quarta feira à hora de almoço, nesse mesmo dia o meu pai piorou durante a visita da tarde e comigo ao lado dele. No dia a seguir fui eu falar com a dita senhora e disse-lhe que o meu não iria sair dali, não estava em condições e tinha piorado durante o dia de quarta, ao que a dita senhora me disse que não sabia (é assistente social, tem um doente em estado terminal, e nem sequer se tentou informar se a pessoa ainda estava viva). O meu pai veio a falecer no sábado seguinte durante a madrugada com um sofrimento terrível, sofrimento esse que poderia ter sido menor, muito menor....ele sabia exactamente que não conseguia combater o cancro, ele sabia que estava a morrer e apenas queria morrer com dignidade. Portanto quando esta gente vem e muito bem dito pela Isa com estes textos maravilhosamente poéticos, só me apetece é dizer-lhes (desculpe a expressão) vão mas é para o caralho com as vossas ideologias mesquinhas, sem qualquer noção do que é a realidade do SNS, embora tenham feito parte de um governo que mais desinvestiu no mesmo.
      Desculpe pelo texto ser longo, mas estas pessoas dão-me cabo dos fígados, fico doente e com vontade de distribuir lambadas a gente que nada mais faz do que andar atrás de votos com demagogias irreais.

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    3. O meu abraço solidário e muito sentido por essa experiência terrível, como se a perda, por si, não fosse já suficientemente dolorosa.
      Mesmo sendo uma dor transversal a tantos de nós, a dôr é única em cada um. Há que respeita-la e valida-la como tal.

      Tenhos os meus, agora o seu, e tantos outros casos dentro dos mesmos parâmetros de ineficácia. Mil queixas sobre profissionais de saúde que justificam com burnout devido à escassez de funcionários, ou escassez de meios ou de salários. Eu acho sobretudo que são falhos em formação, e há-os, naturalmente, tanto no público quanto no privado. Entendo que a saúde e a educação devem ser áreas de investimento prioritário, porque se assim fosse, haveria, se não mais, pelo menos um rastreamento minucioso às capacidades de cada um, enquanto à profissão que escolheram.

      Contudo, mesmo que tudo se processasse dentro do profissionalismo necessário para se lidar com estas e outras situações, mesmo que a empatia estivesse sempre muito presente - como está, em muitos outros casos - entendo que continua a ser uma violência que considero atroz tanto para o doente quanto para os familiares, obriga-los a uma situação de se estender uma vida para lá do que se apresenta como irreversível. Não consigo entender como se podem desligar máquinas de suporte de vida a quem os médicos declaram com danos irreversíveis, por exemplo, mas não se leva em condideração a vontade própria expressa por quem está consciente da sua realidade.

      Outro abraço.

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  2. Respostas
    1. ahahahahaha!

      É tão bom sabermos que podemos sempre contar com ela...:P

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