25 de setembro de 2017

O estranho caso do intestino anti-monárquico

Capítulo I

Capítulo II

Capítulo III

(...)
"Suspirou. Acordou destes sonhos e olhou para o relógio "Meu Deus, Constança, olha as horas!!! Está quase na hora de abertura do LIDL!!! A menos que queira partilhar filas e filas com o povo, com gente imenso de pobre, plebe que não se sabe posicionar, sempre inconvenientes e com aquele cheiro característico que se agarra a tudo, ao cabelo, à roupa, à alma, a menos que queira isto tudo, sugiro que dê corda aos Valentino a ver se chega antes daqueles desabridos todos e consiga ver em paz a colecção da Heidi Klum e traga aquele blusão Biker. Não se esqueça das mini-férias à neve para o mês passado e ainda não tem casaco para a viagem. Vite, Vite Constançá."




Capítulo IV

A razão dos descontentamentos de Balbina estava bem à vista, a sua querida menina Constança, no LIDL! O seu bebé, seu tesouro, a sua rosa sem espinhos, o seu querubim, a quem fizera tanta questão levara pela mão passeando-a pela avenida sempre que a senhora sua mãe se ausentava de férias, de forma a que os preceitos inerentes a seu fino berço, esmerado leito moldado em purissimo ouro 999, nunca se perdessem  e o culpado era aquele D. Juan de trazer por casa, que a deslumbrara com a lábia e sapiência de quem nasce fora da classe, apresentendo-lhe todo um mundo de bizantinices, a começar pela própria mãe e mais aquele terrível hábito de guinchar aos quatro ventos as pechinchas da Zara quando em saldos. Ou a palavra "saldos", por si só. Em bom rigor, Balbina calava em si as culpas da sua senhora, alma volátil, frágil de pensamento e crente no amor sem barreiras, que já antes de desfalecer de amores pelo senhor, havia dado mostras das suas fraquezas idênticas, pois que não raras foram as vezes que preocupou tudo e todos, ao ser surprendida agarrada a leituras virtuais de alguém que se apresentava como É Pouco - Mas é o Zangão Mais Certo Pra Toda a Abelhinha. Deve ser uma coisa genética, concluiu Balbina entre suspiros de pesar, desgastada perante o ónus das evidências. 
Constança, filha única, já carregava por isso e pelo seu género, o vaticínio  de, em gerações futuras, seus honrosos apelidos se diluirem por entre outros, decerto sem história, ou pelo menos  sem a grandiosidade dos de sua mãe, e desde que Balbina realizara esse terrível presságio , tecera mil e um planos de forma a contornar o que entendia ser um golpe de gládio directamente ao coração da monarquia.  A hipótese de uma senhora não tomar os apelidos do seu cônjuge era impensável, pelo que urgia arquitetar-se planos. Já recorrera ao sr. Papa, a quem enviara uma missiva expondo-lhe a situação, relembrando-lhe muito ao de leve sobre os investimentos que o sr. conde fizera no banco do Vaticano, elogiando vivamente a iniciativa do Papa Pio XII, uma vez ser ponto assente a enormidade de almas que a mesma salvou da penúria ao longo dos tempos, das tantas e tantas famílias humildes e muito trabalhadoras que, confrontadas com os enigmas da vida,  ali encontraram a solução que só a Fé oferece, e, claro, da sua eterna gratidão por a salvação do palacete ser decorrente dos mesmos obséquios. Pedia-lhe que considerasse sobre passar a fidalguia a ter a última palavra - ou no caso, os seus nomes - como determinantes, quando em união de facto, ou seja, que o peso destes se sobrepusesse ao dos de menor impacto na História de nosso amado País, ou ainda, em alternativa, que prevalecessem os que fossem em maior número. Terminara a missiva asseverando a sua santidade, a herdeira em causa não padecer de nenhuma doença destas da modernidade, sendo que no entanto, o mesmo não se podia garantir, com a mesma segurança,  sobre o seu futuro cônjuge. 

Seria de mau tom explicar ao sr. Papa as razões que levavam Balbina a aludir esta última particularidade, mas estava certa de que a mesma seria suficiente e  crucial para a decisão pretendida, e por muito deselegante que sentisse serem tais inconfidências,  afinal estava a falar com o representante máximo de deus nosso senhor, era como se fosse uma confissão, e pelo menos 90% verdade, que Balbina não mentia, ciente de que os 10% em falta só viriam da assunção do dito cujo, que, naturalmente, nunca o faria.  Só em caso de pedidos de provas é que reportaria as tantas situações em que, inadvertidamente, ouvira o menino em conversas telefónicas que soavam a íntimas, levando-a a crer tratar-se de alguma rançosa lá dos seus conhecimentos, terminando-as com despedidas dentro dos mesmos contextos, do género logo à noite já te mostro o pau da minha canoa... Álvaro. "Álvaro??" 
Primeiramente assumiu ser um nome de código para lhe acobertar as patifarias, mas depois ouviu Miguel, Édson, Luis, Robertão  e foi quando, num momento de distração do menino, lhe assaltou o telemóvel a fim de por termo  às dúvidas. Lá estavam as fotos de toda aquela gente. Uma pouca vergonha. Uma heresia. Foi de tal forma violenta a constatação, que foi essa uma das raríssimas vezes que Balbina perdeu as estribeiras, não conseguindo conter um olha a ganda rameira! derivado do choque, e tão estridente, que a criada Euláulia, achando ser para ela,  atemorizada e em prantos  lhe disse :- Ó D. Balbina, juro que eu não queria, mas o senhor eurh... obrigou-me!. Balbina olhou-a de jeito fulminante,  de cima abaixo, mas não tinha tempo para se ocupar agora com aquilo também, pelo que, passando para as mãos de Euláulia o telemóvel, ordenou-lhe:- Imprime isto, são provas que vou guardar! No meu quarto! Bico fechado! Do Robertão quero as duas primeiras, dos outros pode ser uma de cada um! E caluda, hã?! Que sobre o teu assunto falamos depois, agora vai! Ah! E a do Emanuel, quero a cores! Vai! Andor! 
Era todo este enredo e mais o daquele recente episódio, de quando o menino lhe passara à porta em espasmos intestinais derivantes do que ela lhe havia posto na comida, o seguira, e o viu, 2km mais à frente, a sair do carro, correndo para uns arbustos, e soltar uns gritinhos estranhos aquando da devida higienização das partes em apreço.  Balbina já ouvira daqueles gemidos antes, e mesmo nunca os tivesse experenciado, sabia exactamente ao que se deviam, tinha visto o brilho resplandecente no olhar de quem os emitira,  melhorias acentuadas na compleição dos envolvidos  [ um dia a senhora condessa até oferecera uma jóia a sua mãe após uma dessas circunstâncias - o qual passou a ser o broche de família de Balbina, que o trazia sempre, orgulhosamente, ao peito - embora quando perguntada, sua mãe nunca lhe tivesse explicado o porquê da barulheira, justificou a aferta como uma forma de agradecimento devido a determinados conselhos ], e lá estava o menino em preparos idênticos. Muito chocada, ouviu-o de seguida falando para a progenitora, a quem disse:- Mãezinha, mãezinha, sabe lá, tive que me limpar aos seus bilhetes de avião para o Mónaco, que não encontrei nada mais adequado à minha pele, mãezinha,  uma maçada, terá que  pedir uma 2ª via, mas estou a ligar-lhe, sobretudo, mãezinha,  para que corra a dizer ao Charles - sabe quem é, sim mãezinha! é o dono da empresa formecedora de papel das agências  de viagens ...siiiim, é... ó mãezinha! Claro que nunca o vê lá! O dono, mãe! Como em proprietário! Então agora ia vê-lo lá porque cargas de água?? - e lhe diga  que PROÍBA a sequer sugestão de qualquer alteração à qualidade do papel, sim? E como está a acabar a bateria do meu telemóvel, por favor diga-lhe também que o nosso encon .... reunião, continua marcada para logo mais à noitinha, sim mãezinha? Que depois falamos melhor sobre o assunto. E ele que traga uma resma do tal papel!, assim mesmo, por estas palavras, virgulas, pontos de exclamação, interrogação e travessões. Tudo. Ela testemunhara aquilo tudo.  
Tentara dividir o que considerava ser um trunfo com a sua senhora, mas sem sucesso. A sua senhora andava deveras nostálgica, ultimamente. Tristinha, queixosa, taciturna, perdera até peso, e só pintava, pintava, pintava, pintava, pintava, pintava, perscrustando, a cada pincelada, os mistérios de uma  perfeição inalcançável. Com o senhor não podia contar, que com os milhares de estudos submetidos a sua douta apreciação, e  que tinha que garantir serem isentos a fim de que o Mundo os tomassem como bitolas de procedimento  e cogitações correctas, pouco tempo lhe sobrava, e o que sobrava, empregava-o em muitas viagens e leituras, que depois, num gesto extremoso de altruísmo e em parceria sem fins lucrativos com a clínica "Faz oó, faz lá vá", partilhava no seu novo hobby, o seu blog, à laia de generosa oferta para todos os tocados  por uma das maleitas mais aflitivas do nosso século, a insónia. 

Bom, há um intestino audaciosamente anti-monárquico a querer entrar para a família, reflectiu Balbina, que uma coisa é ser-se larilas, outra é nem se darem à delicadeza de disfarçar, como fazia e tão bem o Sr. duque pai, e eu estou aqui sem saber para onde me virar... Será que devo recorrer  à xodôna Mª do Céu Pimentinha, do Partido Desconchavo, sempre tão assertiva e coerente nas  sua inferências, a ver como é que descalçamos esta bota ...? 


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