segunda-feira, 19 de junho de 2017

Trago em mim um milhão de gritos

De pesar, de nojo, de revolta. Li  o que a emoção me permitiu, li  nomeadamente o depoimento da jornalista que passou pelo local da tragédia com o colega, e apontava o dedo aos Bombeiros por não estarem lá onde ela esteve, e mais uma parafernália de oportunidades em dívida com o silêncio. Também li a opinião de quem entende que devemos ser humildes, e aceitar os desígnios do Universo. Não há portanto que procurar culpados ou exigir demissões. Foi um raio que atingiu uma árvore, dizem, garantindo conhecer muito bem a área e a impossibilidade de se controlar um fogo, dentro daquelas condições atmoféricas.  Li especialistas em fogos florestais, dizendo que nunca se poderá evitar fogos, mas que  teremos a hipótese de os controlar, se controlarmos o que for plantado, referindo espécies e faixas de plantio, procedendo-se às indispensáveis limpezas de florestas e matas. Chamam-lhe "prevenção". Guardei os links dos artigos todos que encontrei, inclusive aquele que realça há quanto tempo andam nestas discussões, quais e quantas propostas foram apresentadas aos vários governos que já tivemos, sem terem sido aproveitadas. Os porquês ficam por conta da imaginação de cada um. Li sobre o "ouro verde", sobre a extinção dos Serviços Florestais, li o Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses dizer que "não falhou nada", na mesma entrevista em que disse algo como que planear florestas é um risco político. Mas não falhou nada. Vi o Presidente da República a abraçar sei lá quem, comovido como todos nós, espero que muito consciente de que nada tenha realmente falhado.  Se assim for, está cheio de sorte, digo eu, que acho ter falhado tudo, excepto a coragem e empenho de quem dá o corpo ao fogo, o enfrenta tantas vezes sem as condições de suporte minimamente necessárias, ganha uma miséria e ainda tem que saber de relatos como aquele que referi ao início deste texto. Esses é que nunca falham em nada, se partirmos do princípio mais que básico, que consiste na obviedade de lhes terem notado a ausência num "lá", por haver vários outros  "lás" onde as suas presenças eram certamente imprescindíveis: aqueles onde havia fogo. 
Se calhar não devia ter procurado tanta informação. Talvez devesse ter-me ficado pelo tremendo pesar que nos acompanha desde  Sábado, talvez devesse fazer simplesmente o que se faz, quando a impotência nos atinge como outro raio proveniente de uma trovoada seca, manifestar a minha consternação e disponibilizar-me para o que de mim precisarem. Talvez devesse recorrer àquilo dos desígnios do Universo, por uma questão de defesa emocional. Por acaso até acredito neles, nos desígnios do Universo... Contudo, ao que uns chamam de inevitabilidade, a minha cabeça teima em clamar aviso. 62, da última vez que vi. Um número dantesco, em condições dantestas. Talvez, se tudo o que se diz não ter sido feito ou prevenido, se tivesse concretizado, o número de perdas não fosse menor. A Natureza tem as suas rebeldias, sabido é. Mas não ficaríamos com aquele "se" a martelar-nos a cabeça, o coração, a alma, talvez por ser um "se" assim tão evidente. 
Resta-nos aceitar que a tragédia aconteceu. Fazermos por reestruturar o rombo nas couraças que fomos desenvolvendo, devido às tantas outras com que os tempos nos têm feito confrontar, couraça que, por exaustão, nos obrigamos a construir . Resta-nos honrar os mortos, acima de tudo. Despejarmos o nojo que a comunicação social nos possa provocar, naquela ânsia suja por audiências, numa oração qualquer, num grito interior, num soco na parede. Por eles, os que partiram, pelas suas Famílias, e por nós também, para que possamos reencontrar a sanidade, e depois, questionarmo-nos sobre aquele "não falhou nada", com a interrogação necessária. Exactamente pelas mesmas razões.