2 de fevereiro de 2017

D' "A Porteira"



"Estou aqui de roda do Instagrama para dar assim um filtrozinho a umas fotografias que tirei este fim-de-semana aqui na minha varanda, vá, assim mais em artísticos. Ainda estivemos para ir ao MAAT, mas como tenho a cambra da parte da frente do telemóvel partida, a das sélfis, nem merecia a pena. E ainda para mais que no domingo tive cá em casa os gaiatos, os filhos da minha mais velha, e estivemos a brincar às tomadas de posse, que é o que os miúdos agora gostam mais.


Tenho um robezinho azul que é mesmo, mesmo, Deus me perdoe, da cor daquele fatinho da Dona Melânia, o saia-casaco. Mas imaginem-me lá, que os miúdos, que agora é assim tudo muito em moderno, queriam fazer de primeiras-damas e as miúdas de presidentes, onde é que já se viu? Mas eu também lhes disse logo: «Ai, não senhora! O Salvador e o Sebastião fazem de homens e a Caetana e a Constança é que fazem de senhoras, se faz favor!». Para modernos, já lhes basta estes nomes assim, que não me dão jeito nenhum a dizer. Isto são ideias lá da mãe, que diz que agora é o que se usa. Eu cá não sou de modas, que o antigo é que é sempre mais bonito. Olha, assim mal comparado, uma Melania Michelle. Ou uma Michelle Ivanka. E sempre ficava mais atual. Mas prontos, como dizia a minha avó, albarda-se o dono à vontade do burro.


Olha, e foi o que aconteceu lá na América, lá chegou o dia de albardarem o homem. Eu acho que a cerimónia foi bonita, tirando a chuva. Gostei muito da pequena que foi lá gritar o hino, que era uma cara nova, não podem ser sempre os mesmos nestas coisas. Já aqui se vê a diferença, que o Senhor Donal anda mesmo a fazer o que prometeu, que era arrebentar com tudo o que já estava feito.
O discurso dele, também gostei muito. Foi bonito e próprio. E foi em inglês, como pertence, que se não formos nós a puxarmos pelas nossas coisas, ninguém puxa.


Diz ele que vai pôr a América em primeiro lugar. Faz muito bem, que é para isso que lhe pagam. E não deve de ser pouco. E mais casa com tudo à descrição, pensão completa, não é como cá, que o Palácio de Belém é assim mais para escritório e para receber as visitas. Isto quando não têm ainda de ir almoçar e jantar ao da Ajuda. Mas cada país tem o dinheiro que tem. A América é uma casa muito farta, por via das exportações dos filmes, que vão para todo o mundo, a sete euros cada bilhete, façam as contas.


O baile também foi bonito, tudo muito bem arranjado, dos vestidos aos cabelos e dos cabelos outra vez aos vestidos. Houve quem achasse a Dona Melânia um bocadinho nervosa, assim mais em baixo, mas isso deve de ser de não estar habituada a ser primeira-dama. A mulher depois logo se habitua. E por falar em mulher...


Lá fizeram mais uma marcha das mulheres, pá. Eu juro que não sei como é que esta gente tem tempo para essas coisas. Isto a culpa é toda do poliéster, que metade da roupa agora já não precisa de ir ao ferro, e prontos, sobra mais para andarem nestas gandaias. Eu não sou contra a gente dizermos o que pensamos. E os direitos das mulheres são muito importantes, ah pois são. Eu própria, já queimei muito sutiã. O que é que foi é sem querer, com o ferro. A gente podemos muito bem protestar nas nossas casas, não é preciso ir fazer figuras para a rua. Cá em casa, eu resolvo as minhas coisas com laxante no comer. Ou pirepire na escova de dentes. Para que é que eu hei-de ir para a rua queixar-me que ganho menos trinta percento que o meu marido pelo mesmo trabalho, quando lhe posso muito bem não tirar os alfinetes das golas das camisas novas, que é para ele ver se gosta. E é verdade que ele nunca me ajudou a levantar a mesa desde que a gente nos casámos. Mas também é verdade que tem de comprar umas brocas novas de cada vez que usa a Blecandeca, porque nunca sabe onde é que pôs as outras. Sei eu. Deitei-as ao lixo. Sempre. Todinhas. Toma lá que já almoçastes.


Isto vai é de aprender com a História: as coisas não mudam por a gente lutar por elas assim na rua. Ajuda mais a gente ficarmos em casa sentadinhas, a gritar com a televisão, que é onde hoje em dia tudo se passa. E nas redes sociáveis. O Doutor Trump, por exemplo, fez uma campanha muito jeitosa enquanto vocês andavam todos na rua, a fazer não sei o quê.


Sigam o meu conselho: deixem-se ficar nas vossas casinhas, que isto vai lá tudo por si. E se não for, também não faz mal, que a gente quando morrermos vamos deitadas.


E por falar em deitada, vou-me levantar para deitar uma pouca de água nuns manjericões que me deixou cá a minha filha, que diz que na varanda dela lhe bate muito o sol de chapa e não pega. Parece que é para fazer presto.


Para o que eu havia de estar guardada.... Cá em casa é sabão azul e branco. E é no tanque.


Com licença." 



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