quarta-feira, 20 de julho de 2016

E então ela disse assim:

-Ninguém substitui ninguém.

A não ser que estejamos a falar de postos de trabalho, e mesmo aí, cada um tem as suas particularidades na devida execução das suas funções, mas vá, passa. De resto, em mais situação nenhuma desta vida, alguém pode - ou deve sequer tentar - que um alguém substitua quem lhe faltou. A perda é pra ser digerida. Sentida. Doída. E levada até ao fundo do que cada um tem como poço. A procrastinação da coisa resume-se a tempo de vida perdido, à angustiante constatação disso mesmo e por fim, ao inevitável. Cada um de nós lá terá o seu ritmo. E os seus temores, quanto ao que será capaz de suportar. Cada um procurará manter-se à tona da sobrevivência, como sabe e pode. Há quem tente recriar o passado, há quem tente mascarar o presente, há quem simplesmente se ausente e vá  indefinidamente comprar cigarros, tamanho lhe parece o horror da batalha. Impor-se-à, no entanto,  a determinada altura, que o assuma, sob pena de saber que vive, só pelo respirar. Haverá que hastear a bandeira da dôr, desfralda-la e permitir-lhe o rasgo de alto a baixo. Clamará então por deus, pelo diabo por algo ou alguém, deste mundo ou doutro qualquer, não haverá uma só célula de si que não lhe fará coro. Conhecerá o som, a textura, a côr e o odor de cada degradé da dôr e descobrirá o sem fim de subsolos que aquele solo tem. Em queda livre. No desconsolo de um vazio impreenchível. Só. Mesmo quando muito acompanhado, só. Quererá dizer aos seus que os ama, e tudo que lhes dirá serão lágrimas. Quererá morrer, e morrerá, pelo  acordar de todos os dias. E o sentir. Todos os dias. E morrerá mais um pouco. E mais um pouco, e mais um pouco, e aquele pouco de todos os dias, que lhe assevera: viesse aquilo tudo de uma vez só ( tudo de uma vez só),que viv'alma lhe sobreviveria,e implorará que lhe venha tudo de uma vez só. Nenhuma dôr se assemelhará à sua (nenhuma!), por todas pecarem por défice. Défice. Exactamente como todas as pessoas que tentou substituir, por quem lhe faltou.

Exactamente como todas as pessoas que tentou substituir, por quem lhe faltou.


Exactamente como todas as pessoas que tentou substituir, por quem lhe faltou.

"Faltou". 
Passado.
Constatará então o índio, num presente d'equimoses.
Mas vivo. Limpo.

Vivo. E limpo. 




- "Yea, yea.." balbuciei, tilintando o meu copo de morangoska no dela. Ajeitamos os óculos escuros, e voltamos ambas o olhar para aquele mar, que nos trazia e levava lembranças. A seguir fomos aos caracóis. Estava frio.31 graus, naquele fim de tarde, e estava frio.






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