quarta-feira, 11 de maio de 2016

O triste caso da menina que pra santa só lhe faltava o "S"

Eram duas. E ela uma. 
Primeiro achou que dava conta do recado. Ora, coisa tão fácil. Aquilo era só  uma parvoejar  aqui, impropério ali, um vitupério acolá, e a coisa fazia-se. Era praticamente uma anónima, como e por alma de quem, é que uma quase anónima não podia ser, ou fazer o que quisesse, ainda pra mais sendo os outros todos uns imbecis, merecedores de não mais que aquilo. E assim  foi, lalala,  pelo tempo que lhe durou o anonimato. Insultou, ameaçou, criticou, exigiu, caluniou, incitou a que fizessem o mesmo, enfim, se a net tivesse um céu,  ela descobrira-o. Acontece que, comprovando aquela lei universal ( "quando não sabemos o que fazer com algo, não o devemos ter em demasia, usar em excesso"), deu por si cometendo o pecado da gula, o que, naturalmente, e devido às consequências, a deixou devastada.  Foi muito triste aquela despedida. Houve uma cerimónia em homenagem a perfis, com cânticos, e flores,  e eles todos lançados ao mar, em barquinhos, aos quais ela enviou setas  a arder, como os vikings faziam. Essa noite pernoitou na praia. Eles eram muitos. A dôr, excruciante. A dúvida intensa.  E agora?

Terminado o seu romance de verão, a  menina, triste, revoltada, jura vingança. Comprou uma prateleira em madeira jarancadá,  e nela depositou  o espólio do seu amor, o seu  "A", de anónimo. O seu amparo. O seu escudo. O seu martelo de Thor.  Todos os dias lhe limpava o pó, prometendo-lhe vingar a morte, o abraçava com carinho, lhe tirava as teias de aranha, o  borrifava com Pronto, e lhe  puxava o brilho, com paninho amarelo que tinha só pra ele. Todos os dias lhe jurava fidelidade, na intifada que com ele iniciara.  Mas como? - cogitou  - assim, sem ti, como?-  lamentou-se, pesarosa. Veio-lhe à  ideia, num belo dia de inverno,  assumir o seu passado. [Sabe-se muito bem que quanto a isso  de se assumir passados, as pessoas são geralmente  muito receptivas, generosas, têm por hábito dizer que muito bem, assim é que é, e ninguém tem nada com o passado de ninguém e etc. Assumir-se um passado é assim como uma limpeza. Uma espécie de baptismo colectivo, por parte dos demais, que, tendo todos eles um - com coisas por assumir ou não - sentem ali uma certa reflexibilidade, dizendo o que gostariam de ouvir, caso assumissem eles o que fosse, dos seus. Em sociedade, é considerado um acto nobre. Tanto uma coisa, como a outra]. E lá foi. Palmas, abraços, beijinhos. Solidariedade e coisas boas, fazendo juz àquele ritual que as pessoas praticam muito, que é o de se dar a impressão de que um assunto  tem, efectivamente, algum interesse. 

Contente, convencida de que aquele teria sido o mais promíscuo que fizera em toda a sua vida, supirou de alívio, embrenhando-se no que agora queria parecer. Calculara que teria somente que ser cuidadosa no dissesse, publicamente. Teria que se mostrar diferente, após aquela assunção. Deitaria mãos à obra em busca de amizades e contar-lhes-ia dos horrores sofridos, inclusive dos que a levaram àquela confissão púbica.  Sim, faria isso. Careceria era trabalha-los muito bem, de forma a que lhe fossem um apoio quando em necessidade, enquanto, numa linha editorial de acordo com a sua nova personalidade, traria a público assuntos de assaz relevância, partilha generosas, e textos de sua autoria.  Dar-lhes-ia a sua límpida perspectiva das perseguições de que fora alvo, em privado, e ali, em público, faria aquilo.  Exporia a debate  temas aleatórios, de cariz asséptico, como convém a quem se pretende mostrar toda uma outra pessoa.  Asséptico começa por "A". Não substituindo o já perecido, seria, no entanto, embandeirado em sua homenagem. E assim foi. Escreveu queixas, mágoas, altas dissertações e filosofias, e até quando se deixava levar pelo que a regia e debitava com uma ou outra alarvidade menos coerente com a sua actual postura, aquilo ou era perfeitamente compreendido - afinal fora muito maltratada -  ou era apagado.  Em paralelo, iniciou uma outra forma de comunicação, onde podia ser realmente ela. Mails. O seu escape psicológico, que parecer-se boa pessoa, oprime. Ali  dava livre curso  à sua verdadeira personalidade de altos enredos, conteúdos ameaçadores, "ou tu páras ou eu ...",  ali engendrava mentiras e aquela parefernália de coisas que as pessoas estranhas engendram. Vai senão quando,  acontece-lhe o impensável: Os mails foram tornados públicos.  "Ó diabo! Mas esta gente não tem valores, ó quê??", vociferou a menina. Mas não em público. Aquilo foi de si para si.


Aviltada mas não vencida - sequer minimamente confrangida - lá arrebatou mais um "A" moribundo, colocando-o juntinho ao outro, na sua prateleira-jazigo. Sorte que nenhum amigo dera pelo sucedido,
por aquele crime do alheio, por aquela inominável indiscrição, e se deu, ela choraria tratar-se não mais do que  uma derradeira tentativa - muito  mal pensada, facto, mas hey -  de  parar com o incómodo. Diria talvez algo como "meus queridos ... é que estava tão cansada e de repente vi-me tão crescida...".  Ou assim. Mas cada coisa a seu tempo. Agora tinha que pensar em como se recompôr do golpe. Não foi preciso muito, pois que passava-lhe ali mesmo ao lado o trunfo Traição (ou Tanso, que vai sempre dar no mesmo).  Sorriu. "Uma já está!", pensou, vitoriosa, vestindo atabalhoadamente a humildade, que como tudo o que se compra num pronto a vestir, ou aperta dali ou sobra em qualquer lado. Mas o tempo urgia. Era preciso um contra-ataque. E rápido. Impunha-se, em sua defesa, uma qualquer atitude deferente, algo que mascarasse o relevante da coisa, algo que desviasse atenções de como,  quase, aquele pedido de desculpas era irrecusável. Apostara tudo naquele quase. Era-lhe indiferente a aceitação do pedido. O imprescindível seria a menção do por quem ele advinha. Feito isso, era retirar-se-ia, incólume. 

Nesse dia abriu uma água pé que ela mesmo fizera - isto, as comemorações têm que estar à altura dos objectivos atingidos - e acreditou em si, por um bocadinho.  Agarrou no "T" e encostou-o ao que já lá tinha,  escrevendo ao mundo,  o quão triste lhe parecia a quebra de uma amizade, assim por razão nenhuma, o quão tentou,  o quanto fez.   Foi repetindo isso vezes sem conta. Praticamente todos acreditaram. Publicou sobre liberdades, direitos e deveres - contrariando os seus  inúmeros comentários não publicados, em blogs alheios - falou da paz, da concórdia, da humanidade, da chuva, do amor, de carteiras, do preconceito, da força de vontade, coisas que foi tirando do necrotério da sua vontade, em ser o que agora parecia. "N" . Mais uma letrinha pró enxoval, que bom!
 Dentro desse espírito, apaixonou-se pela plataforma Sapo, onde não pertence, e de onde sugere blogs e bloggers, na mais plena vontade de partilha e disseminação do que entende como bom. Sapo, onde está alojado, curiosamente, o blog daquela tal, a uma das duas. Mas não o faz por provocação, nem existe ali nenhum tipo de mensagem subliminar, que não, atentai, a menina já não é o que era. Percebeu, ou aconselharam-na, a que se livrasse de maus pensamentos e actos. Agora, a menina, declara  meas culpas, proclama  justezas e diz que o Homem havia de se redimir.

Reza a lenda que continua, até hoje, ela e as suas 4 letras, religiosamente encostadas umas às outras,  na prateleira em madeira jarancadá,  em busca daquele S perdido.

ANTA.

Faltava-lhe tão pouco....   



      

     

8 comentários:

  1. Ou como o realidade supera a ficção.

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    1. Big time.

      Mas que é uma delícia de se observar, lá isso é.

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    2. Mas aquilo do pronto e do paninho do pó não me convence, acho que é mais do género de quem dá uma cuspidelas e esfrega com a manga para puxar lustro.

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    3. Não estava nos meus melhores dias, confesso. Acho que deixei a dona-de-casa que há em mim, sobrepôr-se à personagem..

      Ainda não é desta que conheço o Tarantino. Bolas! :(

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  2. Ahahahahahhahaha
    Gostei muito.
    Espero que seja uma trilogia.

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    1. Vai ser difícil, porque não faço menages.

      (Mas gosto de sexo. Eu faço sexo. Muito. E muito bem. Sexo. Gosto muito desta palavra: sexo)

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  3. Está tão bom que é mal empregado... ;)

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    1. Gracias, Be.

      Só erraste na 1ª parte..:)

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