terça-feira, 3 de maio de 2016

Intimidades desfocadas

Hoje quero falar de meu amor.

Por volta dos meus 7 anos de idade, altura em que só me tinha a mim e aos meus eus e fartinha de m'aturar, disse a papai " painho.. Pinxéxé quer um amiguinho..",ao que meu pápi respondeu " ai filha, credo! coitado! eurh..agora painho não tem dinheiro pra comprar um, fia, espera mais uma beca até que se acabe de pagar o Volvo pra deixar em teu nome, e em terminando isso - que assegura o teu modo de transporte para o sr.doutor - pápi logo vê o que se arranja, sim?", enquanto me limpava o gelado da testa. Eu disse "'tá bem!", porque pápi tem sempre razão. Tem sempre razão e era, já nessa altura, um homem de olhar atormentado, nunca eu soube bem porquê... Pelos meus 16/17 anos,quando me lembrei de me lembrar disso mesmo, até o tentei animar dizendo que ia tirar um curso. Aquilo fisgou-se-lhe ali um brilho muito estranho nos olhos  e abalou, a correr como se o amanhã fosse um capítulo fechado ... Soubesse eu que o punha tão contente, e ter-lhe-ia contado também das minhas tendências pra profiler, que ia ser esteticista e por aí fora.  Mais tarde soube que ele pedira, nesse mesmo dia, ao nosso presidente de câmara, que mandasse transplantar as árvores todas lá do sítio. Quase morri de emoção (até ficou uma data de gente pendente daquele quase e tudo),de saber que paizinho, em minha homenagem, tinha pedido que fosse retirado da via pública tudo o que pudesse interferir com o meu futuro. Aquilo comoveu-me. Até hoje, o cu move-se-me, sempre que penso nisto. Nem sequer levei a mal que um estúpido qualquer se tivesse esquecido daquela arvorezinha, à altura, ainda bebé. Não. Não há-de ser o desleixo de um anónimo qualquer, que vai ensombrar o episódio mais lindo da minha vida: o dia em que o olhar de papai mudou. 

Voltando ao que aqui me trouxe, após aquela conversa com pápi, resolvi ir dar um passeio. Lá ia eu, lalalala, estrada afora, sem rumo,  quando sinto um cascudo, assim, vindo do nada. Era uma das de mim, a que nessa altura andava no Krava, uma bruta qu'eu sei lá. Eu disse "ai! estúpida!" e ela "cala-te, estronça e ouve é masé, então é preciso ires pedir ao pai por um amiguinho, pá?!" e eu "hã..?" e pimbas! outro cascudo, e eu "páras com isso, que dói, que sangra, que corta, porra??" e a gaja "ai melher ... já não se te aguenta, sinceramente...bom, à frente; o que eu quero dizer-te é: foi o pai que nos arranjou, foi??". Até tive que me sentar perante tal evidência. Respirei fundo, como faço sempre que tenho uma evidência, e foi então que decidi fechar os olhos com muita força, e pedir a S. Júlio de Matos, o padroeiro dos maluquinhos, por mais aquele milagre. Abri-os e... cabum! Lá estava o meu Pinchaço, ali mesmo à minha frente. Ele, e a novidade da delícia de uma centralina mexida, pois que acabara de mexer na minha. 
Primeiro simpatizamos, só. Eu vestia-lhe roupinhas da barbie, maquilhava-o, e ele sempre mudo e quedo. Passamos anos nisto, até que um dia lhe perguntei "tu não falas...?", e ele respondeu "é pra não complicar".
 UAU! 

Double UAU! 

...Petrifiquei. 
Foi a primeira vez que lhe ouvi a voz. Apaixonei-me imediatamente. Não me sabia capaz de uma voz tão grossa, tão sensual, tão sedutora, nem capaz de tiradas tão complexas.  A partir de então, as coisas foram desenvolvendo até aos dias de hoje. Ele aqui, sempre pra mim, na minha imaginação. Sempre. É o meu alicerce, o meu porto seguro. Até quando vou a correr em direcção ao nada que só os outros veem, braços escancarados, cabelos ao vento,calcanhares a baterem-me no traseiro e tropeço no traço contínuo de uma estrada, estatelando-me ao comprido, lá está ele. O meu homem,o meu amante, meu amigo. A rir-se. Adoro-o. Aos anos que ansiava por um  ele, perfeitamente moldado aos meus mais ínfimos desejos e ansiedades. Juntos fazemos tudo, juntos, somos tudo. Imaginamos casinhas novas pra morarmos - nós e mais o nosso cãozinho - viajamos, compro-lhe pijaminhas pra ele ir visitar meu papai, e ele sempre ali, de pedra e cal. Nunca tive ninguém assim tão compreensivo na minha vida, alguém que se mexesse quando eu quero, comesse o que eu quero, vestisse o que me apeteça ou falasse quando eu tenho tempo. 
A segurança que ele me proporciona... O meu amor...:) O único senão que lhe encontro, é aquele ar fantasmagórico com que fica sempre nas fotos, especialmente quando as tiramos em grupo ou assim, e parece que estou sempre agarrada a um qualquer transeunte que por ali passou, num acaso. Mas também, who cares, né? Ninguém é perfeito,e o que é isto, comparado com aquela imensidão de cama que ele me deixa ocupar,por respeito ao meu espaço, à minha liberdade, o que é isto comparado com o que poupo em água, luz e gás, por exemplo..Eu respondo: Nada.


Amo-te, meu amor! 

23 comentários:

  1. És tão mázinha, pá! Aquilo é uma prova irrefutável! Parece impossível...
    ("irrefutável" existe, sim? É o contrário de "futável" que é o mesmo que "fútil"! E que tem tudo haver com a personagem em questão, não confundir com "a ver"...) :D

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    1. Moi, mazinha??

      Jasus.. quanta calúnia..:P

      Logo eu, que sou um doce d'abóbora, um quindim mai fofo, um atentado aos níveis de glicemia de cada um, uma cana-de-açúcar com braços e perninhasé o que sou.
      .. tst.






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  2. Ainda bem que amas, depois de divórcios o amor é bom de se encontrar. Mas sem ajudas dos pais. beijinho

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    1. Concordo. Mas primeiro divorcio-me, pode ser?

      (E depois, se me apetecer, é que tento encontrar alguém que chegue à sombra do meu ex.
      Que já se sabe pá, uma pessoa quando estabelece fasquias e até são altas, não é qualquer merda que nos enche as medidas. Enfim).

      Ajuda de pais, só no amor que nos temos, estojo. E olha que estamos a falar aqui de um tesouro, que upa, upa.:)

      Percebo que te transcenda.


      Pega lá palmadinha na nalga e põe-te a mexer, vá.

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  3. Por momentos pensei que fosses publicar uma fotografia do estádio da luz a abarrotar com o seguinte título: olhem o meu amor tão bonito, é aquele com o cachecol do benfas!

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    1. ahahahahahahahahahah!

      Ou "aquele, ali no meio!"

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    2. Vocês são tão más-línguas... atão não se vê logo que o home é adepto do Sintrense, é muito mais fácil de identificá-lo na claque :P

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  4. Claro. De costas então, é praticamente inconfundível.

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  5. Oh.
    Foste tu que fizeste os corações deficientes?
    Coisa fofa. Tens a mãos partidas, é?

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    1. Os meus corações não são deficientes, invajosa!
      Foram feitos com muito carinho, desenhados sob o impulso do tesão pelo meu amor eterno!

      Não estão partidas. A direita é que está um bocado dorida, porque (caaaaaaaaaaaaaalmaaaaaa, mentes perversas!) andei a tapar uns buiaquinhos nas paiêdes.

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  6. Fiquei embevecida nos calções e nas meias até ao joelho, a partir daí já não vi/li mais nada.

    Isa B.

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    1. Tarda nada está a moça a acrescentar à legenda "desculpem lá pelas meias e pelos calções também, sim?!", e ela com tanto o que fazer, caramba...

      Venenosas, e o que sois todas!

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    2. Não viste mais nada porque o home ia a correr, porra!

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    3. Vá lá...não falei no "celular" à cintura. (Confesso que pensei tratar-se de cinto de ferramentas, aqueles que os trolhas usam para não estar sempre a descer/subir as escadas.)
      Mas aproveitei a hora do almoço para colocar os óculos antes de dizer baboseiras.
      Isa B.

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    4. Vê-se mesmo que não percebem nada da poda... Dassssse!

      Mas alguém tem a noção de quantos metros a pessoa tinha que ter levado de avanço, pra apanhar o homem-relâmpago de costas, caraças?!

      É que não há assunto nenhum, pás, nenhum! que vos mereça um mínimo de atenção, consideração, pesquisa, ponderação e essas merdas todas, caramba. Pô!

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    5. E como o home deve correr rápido, pá! Quando a máquina bateu a foto, já ele ia a cortar a meta e a modos que a foto apanhou um dos 538 participantes, as t-shirts até eram todas iguais... eassim comássim... prontos, ficou aquele :P

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    6. Mas há outra maneira de arranjarmos um marido..?

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    7. Já não malembra como arranjei o meu, já foi há tanto tempo, mas lembro-me de não ter andado a correr atrás de ninguém...

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    8. O meu, coisa mai fofa, faz aquilo de correr desarvorado à minha frente, mas é agora...:(

      Nem sei porquê.

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    9. Ahahahahahahahahahahahahahah :D

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  7. Vou falar com o meu pai, quero um desses que não gasta água/luz/gás...

    Que lindos corações, tiveste um AVC? Macaquita faz melhor que isso, acho que até macaquito com todas as suas lacunas de motricidade conseguia melhor, prontes mas se-calhar é tremura de a-mor.

    Tremura existe?

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    1. Não leste bem. Vai-se a ver e é porque pensas nas coisas muito rápido, tu também.
      Não foi papai que arranjou meu amor, fui eu mesma, com o meu suor e empenho. Papai não se mete nos meu assuntos pessoais, ok? Só me empresta uns trocados de quando em vez, amo papai.

      E também não tolero mais comentários desses aos meus cuixões, que levei uma noite inteirinha a desenhar. Acho feio. Vou fazer aqui uma barra lateral com os links dos blogs que amo, e ama-los e ama-los e dizer-lhes que são um must, e depois ama-los mais um cadinho, que vocês são toda umas gordas que não me respeitam.

      Tremura não existe. Até macaquinhos sabem disso, meus ricos filhos.

      É TE-RA-MU-RA!

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    2. Isa, o que eu me rio contigo! Ah, ah, ah, ah.

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