19 de abril de 2016

Esqueci-me foi de te mandar à merda

A minha Mãe adorava cantar. Cantava tão bem, que quando fazia um intervalo nas músicas que cantarolava, a nossa vizinha pedia a um dos filhos que lá fosse dizer à D. L que não parasse. Ela ria-se, e retomava a cantoria, toda vaidosa. A minha preferida era uma que  a determinada altura dizia algo como,

Recebi a sua carta, meu senhor
Aqui tem a resposta desejada
Diz-me com paixão que sou formosa, 
para arredondar a prosa
Mas não diz nada..
Diz que quisera ter um reino
E a sua coroa a meus pés depôr
Ser reinante um dia, ó quem me dera
Entretanto eu fico à espera... que seja rei.

(Ouço-a, enquanto escrevo isto..)

Meu  Pai  também era um cantadeiro. Oferecia-lhe serenatas exaustivas, dando voz a "Teus Olhos Castanhos" e  embora os dela sejam verdes, a mensagem era bem apreendida. Por todos. Sempre que lhe dava para aquilo, e dava-lhe mesmo muitas vezes, toooooda a gente tinha que ouvir, que o homem tinha um vozeirão do caraças e sabia-o. Os vizinhos, sabiam. Nós, ficavamos ali entre o se calhar vou fazer de conta que não estou a ver nem ouvir nada disto, e o ai que lindo, ai que lindo. Mais velhos que eu, mais na idade da vergonha de se ver o Pai ali armado em palerma a cantar coisas à Mãe, os meus irmãos reclamavam argh! lá está ele outra vez.., eu, enlevada, curiosa, entre um cenário e outro. Ainda bem que nos habituamos, que aquilo durou enquanto ele durou. Ao ritual só se acrescentou o meu pedido "Pai, pela sua rica saúde, mude pelo menos de canção..", sempre ignorado. De resto era tudo igual: minha Mãe nos seus afazeres, o mesmo "este homem é doido!". E o mesmo sorriso. E o mesmo carinho. E o mesmo Amor. Ele morreu e passados uns anos ela adoeceu. Foi uma coisa sorrateira, uns esquecimentos aqui, umas frases sem sentido ali, a mesma pergunta vezes seguidas acolá, e o gelo do medo a apossar-se de nós. Demência, o diagnóstico.  A Senhora que me pôs neste Mundo, no colo de quem tantas vezes deitei a cabeça, que me mexia no cabelo até que eu adormecesse,  que me levava o pequeno almoço à cama de surpresa, que ia de fim-de-semana para minha casa, para tomar conta das netas porque eu "devia estar muito cansada", dizia ela e eu adorava, que fazia o prato preferido de cada um de nós, filhos e netos, nos almoços de Família, que nos cuidou, amparou, que connosco riu, chorou, estava doente. Demência. Ouvi aquilo e quis morrer. Acho que quisemos todos. Acho que toda a gente quer, e morre um bocado, quando uma notícia feita espada, nos desfere um golpe destes.     
Acompanhei cada passo do escalar inevitável daquela ladra de memórias. Vi-a a crescer. Vi-a a olhar-me bem nos olhos, e a tomar conta da minha Mãe. Ali. À minha frente. Lutamos, todos, com tudo o que tínhamos. Esperança, Fé, Amor, União, Cuidado, Vontade, e lá fomos nós. Claro que perdemos, mas aprendemos a perder. Como bons perdedores, a cada perda, o pedido. "Só mais um bocadinho..." Só mais um bocadinho daqueles olhos felizes por nos verem, por favor. Só mais um bocadinho do "é a minha filha!" que era anunciado a todos. Só mais um bocadinho daquele " minha querida..", como só ela o sabe dizer, deuses, só mais um bocadinho. Deixem-na estar assim, ausente de tanta coisa mas consciente de nós, por só mais um bocadinho...
Convenhamos que até foram generosos, os deuses, pensava eu. De entre tantos horrores de doenças que lhe poderiam ter chegado, esta parecia ser uma daquelas cuja dôr estaria só por nossa conta. E foi, por um tempo. Hoje já nem tanto assim, e é complicado quando nos puxam aquele único tapete de consolo, de debaixo dos pés. Não há como não se ir ao chão. Eu fui. Há 15 dias,teve uma convulsão fortíssima e tudo mudou de novo."É mesmo assim", disse o Neurologista, praticamente comigo ao colo, de tanto que lhe pedia que não fosse mesmo assim. Mas é mesmo assim. Ela já não rir, não reagir, não querer andar nem comer, é mesmo assim. Olhar-me e não me ver, é mesmo assim. É mesmo assim, dizem-me os enfermeiros do Lar onde está, que a assistem, e a nós, com um desvelo inacreditável. É mesmo assim, dizem, quando nos limpam as lágrimas. É mesmo assim, terem que a entubar para a alimentar. Terem que lhe prender as mãos, para que não arranque a sonda. É mesmo assim, repetem-me quando me abraçam, ou quando lhes procuro pelo paradeiro dos milagres. Ou quando me pedem que me prepare, antes de a ver. Que cansaço daquele é mesmo assim... mesmo sabendo que é, mesmo, assim. Custa. Não se encontrar resposta em olhos alheios. Custa quando só lá vemos compaixão. Custa. Aquele constante reiterar do mesmo, custa. Mesmo quando é sentido, partilhado, mesmo quando lhes lemos a mesma frustração que temos nos nossos, custa. Já não há raiva nem revolta, agora só há este custo, isto, de tentarmos apanhar os pedaços uns dos outros, de nos estarmos constantemente a recolar, quando só apetece é fugir. Custa, ficar. Custa receber-se o testemunho da coragem, da penosa arte da aceitação, sem estarmos preparados para, e, por imposição de um qualquer código genético, termos que iniciar os filhos para a sua recepção.  Custa termos que lhes dizer, nos piores momentos das vossas vidas, no negrume mais cerrado, quando nada parece ter mais sentido ... é assim que se faz. E fazê-lo, estando eles in loco. A frio.  
Hoje falhei-lhes. Hoje  protestei todos os "mesmo assim" que me têm dito por todos estes anos, hoje disse o NÃO! possível, e desabei em prantos. Vim de lá a chorar e chorei por todas as voltas que dei até chegar a casa. Aproveitei que estava com a mão na massa, e deixei-me ir, lá, até ao fundo do poço das mágoas e hoje percebi que não tenho mais nada a ensinar-lhes. As mãos que costumo agarrar e guardar nas minhas, os braços que se enrolam na minha cintura à procura de consolo, hoje tiraram os meus dos seus ombros colocando-os onde se chora. As mãos, inverteram lugares, hoje chorei também de orgulho. E de alívio por saber que afinal, posso chorar.  

Não sei porquê - ou sei, mas não quero esmiuçar - reportei-me ao que mais aconteceu hoje, que quando este post sair já é ontem. A um mail que recebi, a propósito das diferenças entre mim e o verme que ousou digitar a pessoa da minha Mãe, naquelas teclas imundas. Diferenças que há,  repare-se, não pelo que o entulho escreveu em relação a mim, mas pelo só e simples facto de a ter nomeado, colocando-a na sua mente execrável, num dos tantos escarros à falta de princípios que a caracterizam. O mesmo entulho que está convencido que "resiliência" se resume a alguma capacidade de resposta em caixas de comentários, o mesmo que emite pedidos de desculpas iguais a si, sem carácter, sem brio, sem essência. Sem noção. O mesmo a quem deveria estar vedado o uso da palavra "demência", pelo insulto que implica 
a referência, por parte de uma tentativa falhada de gente, a todos os atingidos pelo esse flagelo. Sobretudo aos que dele padecem, que serão sempre os heróis de alguém. Todos eles, sem excepção. Fiz heróis, no Lar onde está a minha Mãe. Faço-lhes vénias todos os dias. Faço-o a todos, como faço aos que sofrem outros males.   
Perguntavam-me no mail, se eu não estaria a dar importância demais a quem não a merece, se não estaria a dar demasiado tempo de antena a quem não tem relevo nem importância, quando poderia eu a estar a fazer coisas muito mais interessantes. Trata-se de alguém preocupado com o meu bem estar emocional, naturalmente. Em cuidados com o que se possa pensar a meu respeito, sobre isto tudo. Alguém que, embora tendo feito parte da minha vida por um pedaço, não entendeu o meu conceito de limites, ou o que entendo como absolutamente intocável. Respondi que não, não achava. Não adiantando mais à resposta, ficou por dizer, ou relembrar, que pese embora a quantidade de vezes que já me chamaram de filha da puta - levando em conta que sei que a minha Mãe não o foi e considerando o feitio da merda que tenho - a coisa acabou por se me resultar indiferente. O que não é, de todo, a mesma coisa, que estar agora uma enconada qualquer, aqui a usar  Mães alheias e mais as suas doenças, como arremesso de algo que se pretende ofensivo. Porque não é. É imoral, mesmo. E depois, claro, sou Filha, Irmã, Tia, Mãe de quem descrevi acima, de uma forma muito sucinta. Porque eles são muito mais e muito maiores do que aqui deixo transparecer.
Poder-se-ia talvez dizer, que por isso mesmo, era de se deixar a assunto de lado e seguir com a vida. Às vezes até penso que sim. Às vezes. Até lhe ler outra barbaridade sobre um familiar de alguém, e é aí que me decido a fazer disto uma questão de honra. Expelisse a merdas menos poluição à sensibilidade de cada um, e já, talvez, não me visse eu compelida a puxar os galões da dignidade que me ensinaram e fizeram questão que os usasse, sempre e em qualquer lugar. Não me belisca rigorosamente nada, fazer deste espaço um tipo de dedicatória a só um exemplo do que por aí prolifera quanto a  desperdício de espaço neste planeta.  
Ainda surpreendida com a missiva, o teor e seus porquês, e de novo sem razão assim à vista - talvez pela tentada mostra de preocupação, não sei - veio-me à cabeça o final daquela canção ali de cima "entretanto eu fico à espera... que seja rei". E fico. Mesmo sabendo que hei-de morrer, sem ser rainha de porra nenhuma.

A seguir resolvi fazer deste texto um post "uma coisa mais interessante". Acho que até nem me saí assim tão mal. 


  
  
      

36 comentários:

  1. Recebe um profundo abraço virtual, Isa. Que texto bonito.


    (Sobre a massa pútrida de hálito fétido que lhe é consubstancial e o pus que verte pouco mais há a dizer. Que se engane a si mesma, enfanule ridículas realidades paralelas, continuará submersa no mais lodoso pântano fecal que é a sua vida, pocilga imunda, lupanar lazarento de onde nunca sairá).

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  2. Por total incapacidade de exprimir o que quer que seja perante esta colossal demonstração de Humanidade, faço minhas as palavras da Mirone!

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  3. Um beijinho muito grande, um abraço maior ainda, Isa.
    Crê-me que sei bem do que falas. São-nos sagradas, as nossas bonecas de porcelana. Ai de quem lhes toque.
    O teu texto é lindo. Tristemente lindo, em todos os sentidos.

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  4. Um abraço Isa. Um profundo e sentido abraço.

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  5. O teu texto encheu-me de lágrimas e de raiva.
    Um abraço para ti.

    (o resto não merece sequer palavras)

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    1. Sem raiva, Be. Só fofuxices, vá lá.

      Beijo:)

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  6. Enquanto argumento, desculpa, discordo profundamente. (Lady Kina)

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    1. Queres aprofundar a tua profunda discordância ou foi só em jeito desabafo?

      Enerva-me um bocado quando num post destes se opine assim, só porque sim.

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    2. Filipa, se à Isa não interessar minimamente a minha opinião (que é o mais certo e provavelmente acertado), não será a ti que a vou explicar.

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    3. Ah, entendo.
      Foi o que te saiu.
      Apeteceu-te discordar e achas que a dor de alguém que escreve este post se coaduna com pedidos de explicações sobre uma discordância fundamentada por uma justificação cagada.

      Vou-me mas é embora que não me posso enervar.

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    4. Este post foi desvirtuado logo à partida por mim, Filipa, na medida em que nele falei de dois assuntos completamente díspares, em termos de emoção. O que importa, e o que não importando merda nenhuma, sempre importa aquele poucochinho que tu e eu sabemos. Quem lê, concentra-se no que lhe parece, talvez, possível de mudança.


      alfa17(lady Kyna), opinião registada e validada. Talvez em seu lugar eu tivesse pensado o mesmo sem o ter escrito. Mas agradeço-lhe a franqueza.

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    5. Isa, estava a pensar exactamente o mesmo, que terei errado ao querer exibir uma opinião (acredito que a franqueza não deve ser escudo para dizer-se o que se pensa em toda e qualquer circunstância). A opinião em si, sobre os tais dois (senão mais) assuntos do post, não é de todo desrespeitosa em relação ao teu sofrimento, pelo contrário, e creio até que a conheces, aliás, a avaliar pela tua resposta. Devia ter ficado calada, pelo que peço, com toda a sinceridade, desculpa.

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    6. No harm done.

      Desculpas aceites, prossigamos no caminho da boa convivência.:)

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    7. Isa, também tenho as minhas obsessões questionáveis e fiquei "entalada" com esta nossa conversa. Pergunta: se te enviar um mail, portanto privado, posso contar com a tua discrição ou, caso entendas, poderei vê-lo tornado público? Gostaria mesmo de te explicar o meu comentário, mas a ti, apenas.

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    8. (Cala-te, Filipa. cala-te, Filipa, cala-te, Filipa.)

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    9. alfa17, Depende, pá. Se for um mail obviamente sinuoso, filho lá daquele emaranhado de putedo distorcido e com falta de noção, como os que tenho tornado público (e assim mais ou menos como a tua pergunta, já agora), és muito capaz de correr o risco de o veres tornado público, sim. Maneiras que em calhando, escolhias tu né? Mandar, claro que podes sempre. Fodes-me mais uma vez a cabeça com insiuações da merda, e pode ser é que eu te mande qualquer coisa também. Pensa lá nisso.

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    10. Ok. Então escusas de ficar descansada mas para isso não contribuo, já seria demasiado espectáculo até para mim. Não volto a incomodar.

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    11. Escuso de ficar descansada..?
      Acho que te enganaste. Como acho que te enganaste na formulação da pergunta que fizeste no teu comentário anterior, assim como te enganaste na blogger a quem a estavas a dirigir. Concluo, portanto, que és uma pessoa que se engana muito:)

      Vai em Paz.

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  7. Nem sei que dizer... mas sei o que estás a sentir, ou não... Perdi a minha menina no fim do verão passado.
    Os alicerces enfraqueceram, a casa ameaça ruir. Valem-me as recordações, os conselhos, os princípios que sempre me incutiu e que eu faço questão de seguir à risca. Na falta da figura paterna, ela foi o farol que me guiou nos dias tempestuosos da adolescência, e a boia que me manteve à tona, sempre que a rebeldia era excessiva.
    Estou a aprender a viver sem ela. Não tem sido fácil. Por vezes a dor é insuportável, quase dilacerante. Dizem-me que o tempo atenua a dor… verdade… mas o tempo é relativo, pelo menos no que concerne à saudade.
    Porque eu morro de saudades da minha mãe, tão diferente… e tão igual.
    Beijinhos
    Isa

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    1. Isa, lamento tanto..

      Conta comigo e com este espaço, para algum alívio nessa dor. Conta com gargalhadas e parvoeiras,
      que é a única forma que conheço de se percorrer esse caminho.. God bless. Beijos muitos.

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  8. Isa,
    Pega um abraço forte. Daqueles que fazem doer os ossos.
    O texto está lindo, lindo, lindo. Do resto nem falo que aquilo é um lixo.
    Outro abraço.

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    1. Picante, abraço de volta e muito obrigada.

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  9. Isa, para mim os blogues são para brincar.
    Falamos disto, amanhã, quando me tiver a enfiar no teu armário para mais uma palhaçada.
    Um abraço e força.

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    1. Filipa, 'bora lá voltar ao nosso registo habitual.

      É bom saber que tu estás aí, é tão bom saber que estão todas vocês aí.

      Obrigada, de coração.


      Ps: Não sei se vais caber nele, hã?

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    2. E tu?
      Queres explicar esse "Não sei se vais caber nele, hã?" ou também não te apetece?

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    3. ahahahahahahahahah!

      Opá.. aquilo só tem 2 metros de largura, estou só a avisar, né?

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  10. E pronto apenas engoli em seco.
    Um abraço bem apertadinho e muita força.
    Cada um de nós tem as suas batalhas, muitas delas não visíveis aos olhos de terceiros.

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  11. Isa, um grande abracinho. Já uma vez o disse à Linda, num post dela, isto é um tema que é mto sensivel. Tenho demasiados casos na família e um pavor terrível a que o meu pai venha um dia a a ser mais um desses casos...
    Beijinhos

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    1. Muito sensível e pouco falado, acho eu.
      Todos temos esse temor. Calma com esses pânicos. Nada de pensamentos que nos roubam a paz, Ok?

      Beijo grande e obrigada.

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