sábado, 12 de março de 2016

la vendetta e un piatto che si mangia freddo

Uma pessoa já sabe com que linhas se cose, sabe com o que conta porque afinal até foi uma pessoa que os habituou assim. Uma pessoa sabe que muito bem que aquele "´tás melhor?" ou "vê lá se precisas de alguma coisa" não é sol de muita dura nem é sentido, e que logo aos primeiros sintomas ainda que muito ténues de melhoras, podem até muito bem ser prematuras, os préstimos são-lhe logo retirados e com um ar de quem já vai tarde. Uma pessoa sabe muito bem que não é de ficar à espera que alguém lhe faça sopinhas ou caldinhos ou lhe vão tirar a febre ou dar-lhe o xarope à boca, lhe arrumem a casa ou se lembrem  que é preciso ir às compras. Nada disso. Aqui  é mais do género mandarem uma pessoa assoar-se, que não esteja com aquela voz anasalada que mete impressão aos saudáveis, que já enerva, e que wooow! ... se chegue para lá com aquela  tosse, credo, noijo. Assim, na maior das faltas de pinguinho de solidariedade que seja. Também não serve de nada uma pessoa fazer-se de mártir, agarrar-se ao corrimão e dizer que está com vertigens ( foi a minha Mãe que me ensinou e com ela resultava) ou dizer muitas vezes "ai meu deus", ou assim, que desta gente não se arranca o mais pequeno acto de compaixão. Quais "dói-me tudo" quais " acho que vou morrer" (como fazia meu Pai e com ele também não resultava, mas não custa nada tentar) quais quê ... nada.

Uma pessoa isola-se, magoada com tanta falta de compreensão, e lá estava ela, sogadinha,  mais seus brônquios afectados, ali a ver se pelo menos com eles se chegava a um consenso,ó pás ... ou eu respiro ou eu tusso, caraca, e eis que senão quando começa a ouvir algo que se  lhe sobrepõe ao zumbido que lhe afecta ojóvidos também, um zum zum  repetitivo, lá muito ao longe, algo como "tenho fome", " não há nada pra comer?", à laia de claras indirectas a seu fragilizado ser.  De olho arregalado até à medida permitida pela doença que lhe inchou as pálpebras e a carência,  a pessoa diz, de si para si, indignada, "ai que me vou a eles, ai qué desta que saio no Correio da Manhã", mas é então que, num repente, outros valores se lhe hasteiam, quando vislumbra ali, cara a cara, mano a mano, qual pungente girassol em plena pradaria, a oportunidade de vingança perante tão aviltante comportamento. É que numa situação normal e sem drogas - com aí uns 38º de febre, vá - por ter sido interrompida a meio da tarefa "respirar", que se suporia ser de óbvia e prioritária importância a todos os presentes, a pessoa responderia com toda a naturalidade  "então não há? olha dois bofetões aqui à tua espera" e a coisa seguia. Mas isso seria o normal. Que é o que não se pode esperar de quem se encontra fisicamente debilitado, ferido no seu emocional e psicológico,   e  ainda pra mais,  sob o efeito de substâncias duras como o paracetamol, e outras que demoram muito tempo a dizer, a lutar indomitamente, com - à vontadinha e sem exageros - 38,2º de febre.  Aí não se admite. Aí  é  quando trazem à superfície de uma  pessoa a revolta até então controlada,  e aí é quando impera que se saiba agir em conforme. 

Sorriso nos lábios, lá vai ela deslizando atabalhoadamente por ali afora, qual Stevie Wonder numa casa nova,qual borboleta encandeada pelo sol, até  onde se lembra assim muito vagamente estar cozinha, que,  se não lavra  em erro, derivado de toda a tormenta, tem  um frigorífico e até um fogão. Dá com aquilo ( sempre a deslizar) constata que sim, que estava lá tudo, que não era um delírio, palpa as coisas, confirma que sim, são reais, parabeniza-se - porque também se não for ela não está a ver quem será - por não ter partido nada de grave e ter Hirudóide em casa,  e deita mãos à obra. Sem resquício de memória sobre o que se passou no reino das panelas, espeta com o que de lá saiu, na mesa, à rainha ofendida. Muda - dali só se ouve o respirar enranhado - dirige-se ao poiso de onde se vira forçada a levantar-se por vias das bocas da reacção. E espera. Ao primeiro "qué isto?!" mais ou menos em uníssono, seguem-se outros, a solo, como que a provar que como em tudo o que na vida varia em graus, a incredulidade nao é excepção. Ela, expressão esfíngica, olhar ausente, ri-se tosse e espirra, tudo ao mesmo tempo (uma mulher é sempre polivalente), remata com um "ai" de quem sofre a ver se não dão pelo gozo, e continua ali, assistindo, extasiada, à expressão de medo alternada com a de náusea, espelhada em tão seus amados rostos. Litros de água durante e depois - como se fossem eles os desidratados e com a cútis num estado miserável - terminada a clamada refeição,  balbuciam, os selvagens, um "euuur ... estava muuuiiiito bom, obrigada", e  é quando, finalmente, vem o real reconhecimento pelo valor e valentia por quem enfrenta, ali, destemida, as vicissitudes de uma puta de uma gripe. É então quando ela vê, pelo canto do olho que a duras penas consegue mover para o canto próprio,  aqueles  pares de  outros olhos, que,  cruzam entre si, comunicando no subliminar idioma da premonição e clarividência. Ao longe, em sumidinho,  a voz de um deles, falando por todos, com o apoio do anuir frenético, convicto, de todas as cabeças, vai e pergunta o holy grail das perguntas, aquela a que uma gaja quase em estado vegetativo almeja ouvir:
- Tu ... qués mais drogas, pois que não qués...? Precisas, mesmo... num é..?

Ah bem. É que estava a ver que não. 

    


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