terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Terror naquela street

Descobri que os centros de saúde, em particular em dias frios e chuvosos, são tanto um teste ao sistema imunitário, quanto neurológico de cada um. Ontem  fui ao meu, afoita, destemida, apesar do tempo. Tirei a senha e logo aí percebi que se calhar não tinha sido muito boa, a escolha do dia. Era um mar de gente, tudo enfiado numa salinha - tipo unidos venceremos - o único espaço com cadeiras e um painel com o nº a ser chamado. Não percebi se estava lá tudo pelas cadeiras, se pelo painel, ou se pelo carinho que deveriam nutrir uns pelos outros. Na dúvida, e sem querer dar uma de intrusa, mantive-me a uma distância que considerei amigável e segura: entre a sala e a porta de entrada e lá me aguentei, firme.  Firme, exceptuando aquelas alturas em que era abalroada por quem ia e vinha, mas pronto, firme nas minhas convicções. "Vou fazer esta merda, e é hoje", decidira eu, logo pela manhã, na altura exacta em que havia  era de ter batido com a cabeça numa parede ou assim. Mas como não bati, ali estava eu. Resisti cerca de  3/4 de hora, findas as quais comecei a sentir dores no peito e nas costas e uma vontade tremenda de tossir copiosamente, à semelhança da sinfonia cavernosa que se ouvia por ali, e eu na ignorância, se o que sentia seria por empatia, ou se por contágio efectivo. 20 mn depois, doía-me imenso uma perna, tanto, que tive vontade de pedir umas canadianas. Assustada, arrastei-me, coxinha, lá pra fora pra apanhar ar. Passou-me tudo. Afinal era  sugestão, que palermice, que disparate, que tontice, pá, não olhes, não ouças, pensei eu de mim  pra mim, toda airosa, e  regressei à arena, refeita e apressada, não fosse dar-se o milagre de o meu numero estar próximo, ou de eu ceder à tentação de me pôr dali pra fora. Lá me quedei, confiante, colada ao canto mais afastado daquela gente toda, convencida de que aquilo se fazia bem. Ehhp... Se eles conseguem, eu também consigo, pensei. Ignorar os fungares, os gemidos, as reclamações e  os contares de histórias pra ninguém ouvir - ou pra todos, que aquilo parece que tanto lhes faz -  eu tinha só que ignorar, eu só precisava de uns medicamentos. Tudo o que tinha a fazer, era pôr um papelinho no receituário, que está lá exactamente para as pessoas não terem que ficar por ali muito tempo. Mas a minha médica de família reformou-se,  tinham que saber primeiro a quem eu pertencia, e que só se morasse na terra de ninguém, em termos de médico de família, é que a minha intenção de pôr  lá o pedido e aquilo ser pra quem o apanhasse, seria viável. 2:30h depois, verificaram que era viável. Não discuti. Por essas alturas estava mais preocupada com a minha anemia. Eu estava anémica. Ouvi pelo menos  5  vezes a descrição detalhada dos sintomas, e conferia. Eu estava muito doente, sentia-me desfalecer. Para mais, entretanto também já ponderara sobre a vida das coitadas daquelas funcionárias, e decidira que, a revelar-se ser verdade aquilo da justiça divina, mereciam não menos que uma suite 5 estrelas reservada, lá no céu, com spa, bar e stripers à discrição. Alvitrara inclusive se  enquanto cá estão, não pernoitariam no Júlio de Matos, pois que lidar com  aquilo tudo tinha que forçosamente ser compensado com doses maciças de drogas pesadas, administradas fora do horário laboral, só podia, tinha que ser, cogitara até, se não estariam ali sob efeito hipnótico. Não. Não ia agora incomoda-las mais, correndo eu até o risco de uma apoplexia. Sim. Apoplexia. O marido de uma senhora que estava ali tinha tido uma, justamente porque se enervara.
 
De qualquer forma, a partir de determinada altura, deixara de dar pelo tempo  passar.  Estava só ali, catatónica. Deixara de sentir os encontrões, de fugir ao cuspe e ao ranho. Doía-me tudo, mas não me mexia. Por um momento considerara até  aproveitar, já que lá estava, e marcar uma consulta de psiquiatria, pois deixara  de ouvir a  voz  que, dentro da minha cabeça, há 2:30h atrás me berrava "baza! baza já daqui!", e estava cheia de saudades.  Agora só via sombras e ouvia espirros e nomes e sintomas de doenças. Mas lembrara-me da senhora que andava ali a falar com toda a gente, sem esperar por resposta nenhuma, a dar explicações a todos sobre cada papel que tinha, a mesma que me perguntara qual o numero da minha senha e por causa  de quem quase me mijara de medo, a tal que penso que só não falou com a máquina das senhas - acho, que por momentos fechei os olhos a imaginar-me montada no meu unicórnio, pode muito bem te-lo feito nesse pedacinho - e receei de ter que esperar ainda mais. A senha dela era a exactamente anterior à minha.  Quis limpar uma lágrima de desespero, doeu-me imenso o dedo. Tendinite. Óbvio. Ou pior, partido. Sei lá. Não me lembrava de nada. Amnésia. Era só o que me faltava.
À chamada do meu numero, corri para o balcão, coxa, de olhar perdido e cheia de tuberculose, o mais rápido que pude (penso que 15mn). Com a mão boa enfiei o caraças do papel no raio da ranhura, que tinha estado ali o tempo todo a olhar pra mim, de sorriso cínico ao canto da boca, a  filha da puta. Saí esbaforida. Chovia a potes, e eu de guarda-chuva, esquecido, dentro da mala. A meio da molha lembrei-me dele, mas caguei. O que mais podia eu apanhar né? Uma constipação..? Não me façam rir. O que é uma merda duma constipação, perto de uma suspeita de tendinite ( ou fractura)? Ou de uma tromboflebite? Ou ainda da alta probabilidade de  fibrose pulmonar...? Quê... ausências? Também já tinha, que não sabia do meu carro.  Encontrei-o, porque era o único naquele estacionamento. De facto, ele é que me encontrou, se formos a ver bem as coisas, eu só caminhei na direcção de onde o instinto me dizia que tinha vindo, e ele estava lá, à minha espera. Apeteceu-me abraça-lo, de tão saudável que me pareceu. Entrei, pousei a cabeça no volante e fiquei ali por um bocado, a tentar lembrar-me do caminho para casa. Ainda tinha que ir buscar roupa à lavandaria. Fui, a roupa está cá, mas não me lembro de ter ido. Doem-me os braços, as pernas e a barriga, não me apetece falar com ninguém, acho que apanhei uma negação. Estou revoltada. Estava de chuva, certo, e as pessoas têm que fazer alguma coisa, ir a algum lugar, ok, e por isso mesmo, custava muito ao Sporting ter feito um jogo ontem, àquela hora? Para que servem os grandes clubes de futebol, se não podemos contar com eles pra nos desimpedirem as estradas e outros espaços? E o governo? Onde anda o governo quando precisamos dele? Ainda por cima, reparei muito mais tarde que, com a pressa, só pedi um dos dois medicamentos em falta. Desabei. Praticamente vi ambos os meus sistemas, imuno/neurológico, a acenarem-me com o lencinho branco da partida, como aquelas pessoas no adeus a Fátima. Ainda perguntei ao 1º se não podia ficar mais um coche pra me ajudar a curar-me o eczema, e ele até hesitou, mas o outro, com um cascudo, decidiu tudo pelos dois.  
Tenho que lá regressar dentro de 8 dias, que é o tempo que lá, um médico leva a passar uma receita. Não sei se quero. Não sei se posso. Não sei se estou viva e não sei se vou.  Não sei, não sei, não sei. Sinto-me muito doente. Preciso de ressonâncias magnéticas.




8 comentários:

  1. Bem, como ainda é natal, deixa-me dizer-te que existe uma coisa muito jeitosa de seu nome "portal do utente" e se o que tiveres for crónico, podes pedir as receitas por lá.

    De nada, depois pagas uma jola.

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  2. Obrigada, pago claro.

    Conheço, embora nunca tenha usado, mas acho que vou aderir.
    Fartinha de fazer daquilo, e tem sido sempre entrar e sair. Demorou-me sempre menos que o tempo de abrir o pc, para além de me ficar em caminho de muitos sítios onde normalmente vou.
    Ontem é que foi aquilo.

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  3. É o que fazes de melhor.

    Dá para se fazer tudo por lá, inclusive consultar listas de espera para eventuais cirurgias. Marcação de consultas, medicamentos, isenção de taxas moderadoras, pá, perde um bocado de tempo com aquilo e a tua vida mudará para sempre.

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  4. Já tenho o portal guardadinho, para devida consulta e percepção daquilo.

    Muchas gracias.

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  5. Hoje em dia, tudo se faz pela internet, tudo, até cagar, como os posts que vão aparecendo neste blogue demonstram, foder, já se fode há muito, como se lê em blogues de gajas, onde se fodem umas às outras como só elas sabem fazer.

    Portantos pá, não te admires se um dia descobrires que tens pena de não teres nascido byte, ou kilobyte, ou até gigabyte, tantas coisas que terias evitado....

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  6. Pá, eu cá sou pela liberdade de expressão e essa treta toda, que sabes que sou.

    Agora o que me faz espécie, é se quando se despeja um bouquet tão compostinho de tão perfeita merda numa caixa de comentários qualquer, a pessoa ficará feliz consigo, e se fica, porque será.
    Mas posso muito bem morrer sem descobrir, hã? Qu'esta nina sabe muito bem de suas prioridades. Por exemplo; neste momento, a que se me afigura assim como mais premente, é virar-me pró meu lado bom e continuar a dormir, ganhando por um triz à prioridade "o caralho que ta foda", que estava em exequo àquela, que te passou ao lado (talvez em virtude da sua inconveniência), e que se traduz, em paralelo ao assunto por ti brilhantemente mencionado e que passo a citar «como se lê em blogues de gajas, onde se fodem umas às outras como só elas sabem fazer», que é empírico, pois que é, levando este empirismo a outro, que é aquele dos blogues de gajos que querem, mas não fodem. Ora aqui, logo assim num repente, é uma catrefada de porquês:
    -Porque não sabem?
    -Porque não sabem?
    -Porque não sabem?
    -Porque não sabem?
    Ou ainda:
    -Porque não sabem?



    Hei-de morrer estrafegada em pontos de interrogação é o que é. Puta da minha vida.






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  7. E então, estás melhorzinha?
    É verdade que sou bastante crítico dos teus posts, mas sabes como é, não espero menos de ti do que poderia esperar do Camões.

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  8. Fasquias, né..? Poisé.
    Caguei outra vez. (E passo a vida nisto, nem sei, mas é que são umas atrás das outras).

    Lá porque se nasce nesse dia, a 'soa tem andar aqui constantemente em floreados ou o camandro, e mais a mais, já devias saber que sou mais Bocage.
    Claro que podes criticar à vontadinha - tendo como certo que responderei à vontadex - partindo sempre do princípio universal, que cada um, mesmo crítico ou criticado, mijará com a sua. Olé.

    Estava melhor até saber da partida do Bowie. Agora tristei.
    Tou aqui estou sem ídolos vivos.

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