25 de janeiro de 2016

" Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me "

Diz ele assim:

«As mulheres têm fios desligados
Há uns tempos a Joana,
- Pai, acabei um namoro à homem.
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
-Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou-me mas foi
- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)
ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
-Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca.
Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me.»
© António Lobo Antunes

O melhor que li hoje.



17 comentários:

  1. a mim também acontecem coisas estranhas

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  2. Outra coisa é que seria de estranhar...

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  3. Sim, mulheres e homens são muito diferentes, e é na aceitação das diferenças que está o segredo para o casamento feliz. Em alternativa, e para que ninguém fique a perder, há o celibato.
    Uma mulher nunca entenderá porque um gajo depois de coiso, quer é descansar em paz. E outras coisas...

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  4. Qués um frasco de Nutella?

    Comigo resulta imenso, quando me ponho com essas lamechices. Física e emocionalmente.

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  5. Eu gosto de lamechices, de Nutella também, mas é coisa em que já não toco, desde que passei a evitar coisas menos saudáveis.

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  6. Da maneira que o entendes, nunca fui de beber.

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  7. Beber, socialmente.

    Falavamos do que não tocas, desde que passaste a evitar coisas menos saudáveis. Estou a tentar ir por eliminação de hipóteses, para tentar perceber o que é saudável para ti.

    Parece-me que lamechices não é, Nutella também não e beber idem.

    Uma mulher nunca irá perceber uma série de coisas, mas pá, uma mulher tenta.





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  8. Beber socialmente, no meu caso é saudável, que eu sou gajo pouco sociável. Mas quando socializo, ó caralho....

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  9. Ele deve saber, porque da fama (e do proveito) não se livra.

    Também já disse que as crónicas que escreve para a Visão são uma merda e que só o faz por dinheiro. Curiosamente prefiro-as aos livros.

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  10. Ok. Agora que já sei das tuas preferências, e uma vez que o autor do texto também faz lá o seu acto de contrição, sobre este texto em particular:
    -confere, ou nem por isso?

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  11. É-me absolutamente indiferente. Não sou um formalista, o modo como termina não me interessa nada. O fim é sempre o fim, tal como na morte pouco interessa o como ou porquê. Apesar disso considero o "não és tu, sou eu", ou formas semelhantes, mais um acto de misericórdia do que de cobardia. Infelizmente, a piedade não é, em mim, hóspede habitual.

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  12. Misericórdia, para com quem, é o que interessava saber. "Não és tu, sou eu", acaba por querer dizer que "és tu" sim, uma vez que "eu" já não estou bem aqui. Conversa pra boi dormir, ainda bem que dos meus 757,5 namorados, nunca ouvi daquilo, que acho que se não era, passava a ser eu, sim.

    E o modo como termina tem importância, sem senhor.

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  13. Esse é um raciocínio muito enrolado, mas pronto, cada um usa os alcatruzes de que gosta mais.



    Já imaginava que iria ser chamado à colação. A meia unidade depois dos 757 é por ser anão?


    (Diz-lhe que sim.) Sim, tem importância, sim senhora.

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  14. É nada enrolado. Aquilo são palavras escusadas e pronto. Parece que se está ali a oferecer uma caixinha de bombons por serviços prestados "olha que tu continuas toda fofinha, hã? Eu é que coiso...", assumindo-se um qualquer tipo de defeito em função do bem estar do outro, como se fosse necessário, ou como se isso de alguma forma apaziguasse alguma dôr. Como obviamente que não, quando muito, apazigua é o sentimento de culpa sempre inerente a separações, sobretudo ao que tomou a decisão. Logo, misericórdia consigo próprio.


    "Diz-lhe que sim" está soberbo. (Muchas gracias). Estás a 2 suspiros de te tornares o homem perfeito, e isso, diz mais alto que a gente namora ou namorou, que do que eu estou mesmo precisadinha é da minha cx de mails carregada de gajas a questionarem-me sobre a veracidade daquilo.


    Só me sai é disto na rifa.



    ( Eurh ... a gente não namorou, poi não..?):P

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  15. Tu bem escreves mas dizer alguma coisa de jeito, nunca. Mandar bocas e falar da vida dos outros é o teu curso superior loura burra

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  16. Cada um é pró que nasce, pequeno pechisbeque...

    Eu nasci pra isso, e tu pra te auto retratares com nicks alusivos ao que a Mãe Natureza faz, quando percebeu que te fez.

    É respirar fundo e aceitar.

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