25 de novembro de 2015

Os pequenos homens e suas interacções sociais

Era uma vez um pequeno homem. 
O pequeno homem tinha um perfil no facebook - como a maioria dos homens e mulheres da época - e lá dissertava sobre o que lhe ia na sua pequena alma. Ali, onde ele queria ser grande - como a maioria dos homens e mulheres da época - espalhava as suas opiniões, gostos, inclinações e outras merdas, nomeadamente aquela merda da liberdade de expressão, a qual ele prezava muito, especialmente em se tratando da sua. Considerava-se - como todos os homens e mulheres da época - uma pessoa justa, recta, honesta e muito brilhante na sua pequenez, e lá andava então ele, feliz pela existência das redes sociais, onde pregava a liberdade, a democracia, o direito a isto e àquilo, sempre muito opinativo. 
Por ser assim, muito cheio de valores que ocupam muito espaço, e sendo pequeno, não lhe cabia mais sentido de humor nenhum para além do dele, que estava na exacta proporção à sua altura. Tinha um sentido de oportunidade muito curioso, que normalmente usava para chamar as atenções sobre o quão visionário era, e queria porque queria a toda a força, sê-lo mais que os outros. Aquilo, para ele, era um dom. 

Vai daí que um dia, aconteceu um atentado em França. A consternação foi geral, as manifestações não tardaram a aparecer. De repúdio, de temor, de indignação, de solidariedade, o mundo inteiro tinha qualquer coisa a dizer, e é claro que o pequeno homem também. Comandado, talvez, pelo tal sentido de à hora certa, no local certo, a pergunta certa de que se sentia orgulhosamente provido desde nascença, esperou que aparecesse um post da PSP, que, solidária com os atingidos, lhes prestava a sua homenagem, para lhes perguntar assim:

- Eu gostava era de saber o que é que nós estamos a fazer de concreto para controlar a movimentação «desta gente» ?
Ou vamos ficar aqui sentadinhos à espera, quais «sittings ducks»?


Ora, provavelmente a coisa tinha-se quedado por ali - mais uma pergunta estúpida, menos uma observação da treta, who da fuck cares, né? O pipól já anda prá lá de ganzado, com isto tudo tremeu mais um coche, ter-se perguntado uma parvoeira daquelas, ou se alguém ali da PSP saberia das últimas cotações da bolsa (e se não sabia, deveria), apresentava-se, penso, aos outros leitores, como exactamente o mesmo desperdício de silêncio - não fosse alguém, sabe-se lá porquê, talvez por generosidade para com o intelecto de quem mais passasse por ali os olhos, ter respondido isto:

- podíamos fazer campanhas para diminuir o alcolismo, isso salvava muito mais gente, em contrapartida você ficava sem nada que fazer entre as 16h e as 22h...

Se isto não foi a melhor resposta do dia, andou lá tão perto qu'até se pode ouvir os primeiros acordes do Hino Nacional prá medalha de ouro, e, nessa conformidade, vai aqui a Eva e pespega-lhe com um "like", à falta de não lhe poder pespegar com mais nada de mais íntimo, que, foda-se, a meio de tanta sandice uma pessoa estava por tudo. É claro que o pequeno homem não gostou. Ressentido, tentou fazer graça com o erro ortográfico do outro, e ai que faltava ali um "o" ao ao "alcolismo", *bocejo* e que portanto, se calhar,aquela pessoa tinha começado a beber mais cedo,*outro bocejo* (sem reparar na portita que abrira ali para o "sittingS", mas hey, mas hey, mas hey...), ao que o outro lhe responde o equivalente à medalha de prata - sacana do bicho que tinha o pódio todo pra ele - com algo semelhante a " a sério que é isso que tem para contra-argumentar...?". Bom, fiquei com um bocado de pena do claro vencedor, na medida em que ele não sabia, mas sabia eu, que era mesmo aquilo e só, o que o pequeno homem tinha pra contra argumentar. Conhecera-o, eu, numa outra vida. Sabia, portanto, que quem nasce pequeno, tarde ou nunca cresce, todo o episódio foi, aliás, um lamentável constatar disso mesmo, pelo que, sentindo em meu peito um desespero solidário, boto com outro "like" àquele grito de horror, a jeito de quem dá a mão a um desconhecido, naquela de pá, pronto, vá, eu sei, eu sei... se fores mesmo da bófia, antes 36 lelos a foderem-te o sossego numa chamada de emergência da central no teu dia de folga, que estes murros no estômago, mas pronto, vá, respira fundo que já passa, e fui à minha vida. Mais tarde verifiquei que o pequeno homem,num gesto de clara consonância com o seu tamanho, tomara a decisão de me bloquear. O assunto passara-se numa página pública, não éramos "amigos" na rede social em questão, e 2 cliques bastaram para um bloqueio. Soubesse eu deste poder, e já o teria utilizado antes, concluí, impressionada comigo e com esta incapacidade que me é tão intrínseca, de aceitar as limitações alheias. Suspirei, desalentada. Alvitrei, perdida, sobre como é que, doravante, poderia eu saber dos gráficos sobre a economia deste ou doutro país do mundo, de política, de particularidades curiosas sobre o partido PAN, dos  profícuos ensinamentos de Buda - sobre a Amizade, o Amor, a Partilha, a Família e/ou o caralho - mas acima de tudo, do saudável crescimento da arvorezinha plantada em 1720 A.C. e adubada "au naturel", sobre a qual me dei conta, da última vez que lhe fui espreitar as novidades ao seu perfil público (claro), onde pude observar imagens da pobre árvore, num tipo de antes, durante e depois, sendo que a dita se encontrava sempre exactamente na mesma, por oposição ao sorriso do imbecil, que se lhe ia alargando nos lábios. Porquê, só os deuses saberão. Mas lá está, quando uma pessoa está feliz, a gente não mexe nem pergunta, que pode estragar. Talvez o ângulo da foto tivesse como objectivo o perfeito visionamento das feições do papoilo, deixando para segundo plano uma hipotética folhinha tímida, que lá resolvera espreitar o mundo, malgrado a perfeita noção de quem a plantou, que isto as árvores também têm sentimentos. Não sei. Não quero dizer mal. Isto é só um talvez. De qualquer forma, ocorreu-me que, à altura, pensei algo do género * mas porque caraças é que a pobre da raiz não pode ter o privilégio de um plano todo só pra ela, porra?!..Isto é uma competição..? * ,mas depressa tirei dali a ideia, que, se não me falha a memória, tinha qualquer coisa ao lume. Só mais tarde, após o bloqueio de página, é que realizei que quiçá aquilo estivesse a ser adubado com o cérebro do plantador. Não há merda mais natural que aquela, isto é um facto. Rezei um Pai Nosso à árvore, que merece, coitada. Talvez nunca passe dos 10cm de altura, mas é uma árvore sacrificada. Talvez nunca venha a emitir oxigénio, mas é de propósito, para nos poupar. Há toda uma inteligência por detrás do que consideramos fenómenos da Natureza, que, quanto a mim, passam por uma selecção natural de determinadas coisas, que nos transcende, mas que são muito importantes.

Estava eu ainda muito magoada, mas já um coche conformada com mais esta vicissitude, quase, quase, a tirar o sentido do assunto -tinha mesmo que ir ao shopping comprar um hidratante para o corpo, prioridades são prioridades - quando, num repente, se me epifaniou aquilo do "um filho, uma árvore, um livro", que é aquela forma muito original de uma pessoa achar que deixa a sua pegada neste mundo. Exclamei um "AH!" triunfante. "AH!". Repeti-me. Finalmente, parecia ter entendido algo daquela amálgama persona! "Um filho". "Uma árvore". "Um livro". 
Se a tarefa lhe vai na segunda etapa, falta-lhe, obviamente a última. 
Daí que a puta da árvore não cresça.
Daí o bloqueio.
"AH!" Disse eu de novo. 

Seguido de um vigoroso "Daaaassssssse.....!", aí uns 2 mn mais tarde.  


               



   









            
















  





Sem comentários:

Enviar um comentário