29 de setembro de 2015

"Se"

Tsunami. Ela ficou a olhar aquilo como quem nunca tinha visto - porque não tinha - entre sensação de perigo e deslumbre. Optou pelo segundo: ela nunca tinha visto. Ficou. Aquilo caiu-lhe em cima com a força com que o perigo avisara. E ela ficou. Mais. Ficou, até ser só aquilo: perigo. Quando deu por si, não se encontrou. Faltavam-lhe pedaços. Procurou-os, com o que lhe restava. Mas o que lhe restava até nem estava certo do que procurava, ou se, a encontrar, quereria o expólio de volta. Parecia-lhe despiciendo. Aquilo, o que desaparecera fora o que a fizera ficar. Assim como estava, provara-lhe ser possível dizer-se viva. Respirava. Estava viva. Diz que é bom, estar-se viva. Tão tarde na vida se lhe assomara aquela curiosidade, tão tarde descobrira aquela coisa que a fez ficar. vivera tão inospitamente feliz até aí, que se continuasse assim, mal não haveria de lhe fazer. Mal, havia-lhe feito aquilo que lhe faltava agora. Pensava nisto, enquanto continuava viva - respirava, andava, falava - e detectava aqui e ali pequenos fragmentos "daquilo". Não se preocupou em reuni-los. Não queria. Doera-lhe um mundo saber desse outro mundo. Desconfiava até que se cousa tão magnificente pudera transmutar-se como que num punho gigantesco, esmagar até a própria noção do que se é, quem se é, fazer-lhe indagar a própria existência - se lhe teria sido permitida ou se a houvera roubado a alguém - aquilo só podia ser coisa má. Não se contrariam forças da natureza. Nem essências de humanos. Afinal de contas, até o tsunami, em toda a sua magnificência, avisa: isto vai matar-te. Foge. Ela é que não fugira. Cogitou nisto, enquanto resgatou o cérebro daquele punho. Ordenou-lhe que lhe movimentasse de novo o corpo.O cérebro tem destas coisas, é-nos um orgão vital, mas só quando comandado por nós. Obedecendo-lhe de novo, ela mandou-lhe que lhe desenhasse nos lábios o sorriso. O seu. Não aquele. Falso. Não. O seu! Depois que lhe articulasse a voz. A sua. Não aquela em que o silêncio é que mandava, ou a que a revolta calava, ou a que um simples monossílabo se lhe apresentava como um idioma difícil de aprender. Não. A sua! Depois os membros. Que funcionassem. Para o que serviam. A direito. De pé. Sem tremores. As mãos que lhe saissem da cara. Os passos que fossem seguros. E em frente. Em frente! E que aquele "porquê?", lhe morresse.

Criou o seu conceito de felicidade. Resumia-se a estar viva. Estar-se vivo é bom, dizem. Ela resolveu acreditar. Urgia que acreditasse em alguma coisa.Naquilo, pareceu-lhe bem.

Conheceu-o. Aprendera a ver para lá do que se vê. Conheceu-o. E viu-o. Trazia em peso o mesmo défice que ela. Não lhe sabia o paradeiro, nem sabia porquê, mas sentia que aquilo lhe fazia falta. Não de inicio. De início ele só sabia que lhe fazia falta qualquer coisa. Procurou. Onde lhe foi possível. Enganou-se. Deliberadamente. E usou o seu engano como caminho. Magoou-se. Porque sabido é que se acreditamos muito numa mentira, aquilo toma em nós a proporção de uma verdade. E magoou. Percebeu. Mas não tinha tempo para perceber dessas coisas. O problema ali era o tempo. Ele, não tinha tempo. Identificaram-se nisso, na falta de tempo. Ele tinha muito e corria, ela porque tinha pouco, media. Encontraram-se numa qualquer intersecção da vida, do tempo. Identificaram-se e gostaram-se. Alvitraram como seria. Se. Riam. O impossível tem destas coisas, quando assumido. Despoja-nos as defesas.