29 de setembro de 2015

"Life is not measured by the number of breaths we take, but by the number of moments that take our breath away"

Estavam apaixonados, ele precisava de um transplante de pulmões, ela precisava dele, ele precisava dela, e dum transplante de pulmões, ela - por um qualquer motivo que não apanhei - provocava-lhe infecções, terríveis e incompatíveis, com quem se candidata a um transplante de pulmões, também lhe dava o que ele precisava, amor, e ele a ela, amor, que é o oxigénio da alma, mas, as infecções eram terríveis, e incompatíveis, com quem se candidata a um transplante de pulmões, os médicos, mandaram-nos afastar-se um do outro, eles protestaram, disseram não, o corpo clínico disse que uns pulmões novos, eram uma benção, uma dádiva, eles disseram que o que sentiam, também, uma benção, uma dádiva, mas os médicos disseram não, que uma dádiva, é viver, isso é que é uma dádiva, e que, ou se afastavam, ou não havia pulmões novos práquela mesa, porque os riscos, eram muitos,e que ela ia mata-lo, que era como se agarrasse numa arma, e a apontasse a ele - por um motivo qualquer que não apanhei - ela, que o amava, e a quem ele amava, fazia-lhe aquilo, mal, ele relutou, ela repensou, o problema era ela, ela tinha qualquer coisa - por um qualquer motivo que não apanhei - que lhe fazia mal, a ele, se ficasse, porque ele precisava duns pulmões novos, e assim, não os recebia, então ela, achou melhor ir, porque havia que deixa-lo viver, e eram novos, disse a outra médica, eles, ambos, novos, haviam d'encontrar outras pessoas, e depois, havia também que respeitar a família daquela pessoa, que tinha acabado de morrer, e a pessoa, que tinha acabado de morrer, e de quem ele ia receber os pulmões, lindos, e novos, também, como eles, os dois, uns pulmões novos, e lindos, saudáveis e novos, e lindos, ela foi embora, a chorar, porque sabia que aquilo era mentira, aquilo, de se encontrar outras pessoas, era nova mas não estúpida, há coisas que uma pessoa sabe, e pronto, ele também, acho que ele também sabia, mas o problema é que ele, precisava mesmo de respirar e assim como estava, não conseguia, e ele queria respirar, com ela, por ela, dela, mas assim, não conseguia, e precisava de respirar, dela, mas ela, era um problema, fazia-lhe mal, e bem, mas prevaleceu o mal, que ela lhe fazia - por um motivo qualquer que não apanhei - então ela, foi-se, mas não antes de pedir que lhe dissessem, a ele, que ele precisava mesmo, mesmo, de procurar uma outra pessoa, já agora que tinha pulmões novos e tudo, e foi-se, a chorar, ele ficou, lá, com os pulmões d'alguém que, porque morreu, lhos deu, e há que respeitar estes gestos, nobres, há que respeitar, há que respeitar, sabe-se lá por quem aqueles pulmões inspiravam, e expiravam, sabe-se lá, quem dependia deles, para além do quem óbvio, ele recebeu-os e ali ficou, em recuperação, morto, mas vivo, e em recuperação, física, ela, foi-se, porque é assim, quem ama, faz destas coisas, larga, afasta-se, aparta-se, o mais possível, quando, o que de melhor tem pra dar, se torna, num qualquer tipo de infecção, então, ele chorou, ela chorou, eu chorei, choramos todos e acabou, e todos compreenderam, cada um fez a sua parte, ela, ele, os médicos, até o defunto, fez a sua parte, todos sublimaram, o que havia a sublimar: pra se respirar, é preciso pulmões, facto, quanto mais não seja, pra se continuar só, a respirar, ou continuar, só, e só até àquele dia, em que se vai encontrar outro alguém, porque vai, vão, que há tantas pessoas no mundo, tanta alma, tanta, tanta,tanta, tanta, tanta, que seria muito improvável, de entre esse tanto, não se dar com outro quem, por quem. Respirar. Neste matadouro d'almas.


Inspirado num episódio de Anatomia de Gray, que é aquela série onde se fazem os transplantes possíveis.